AUTISMO

Sexualidade e Autismo


(Texto extraído do Relatório Preliminar sobre o mesmo tema elaborado em 1992 por Demetrious Haracopos e Lennart Pedersen na Dinamarca com financiamento do Ministério Social Dinamarquês - disponível na íntegra na biblioteca da AMA)

Autismo

Embora a ocorrência do autismo seja pequena (1 caso em 1000), este tem sido alvo de um interesse crescente por parte dos profissionais. As contribuições para a compreensão das causas e da patologia da síndrome vêm de campos diversos como a neurobiologia, neuroanatomia e neuropsicologia, da psicologia cognitiva da psicologia do ensino etc. Hoje aceita-se ser o autismo um distúrbio do desenvolvimento de natureza biológica. A psiquiatria cataloga o autismo como " Distúrbio Abrangente do Desenvolvimento" nos sistemas básicos de classificação diagnóstica CID-10 e DSM III R (Lier et al. 1988).

O autismo pode aparecer nos primeiros meses de vida ou até os 3 anos de idade. A síndrome do autismo apresenta retardo mental e desenvolvimento anormal da linguagem e nas habilidades de comunicação e interação social. Além destes sintomas cardinais, a criança autista apresenta outros desvios de comportamento como hiperatividade, déficits de atenção, e desordens motoras, sensoriais e de percepção. Frequentemente aparece agressividade e automutilação e recusa para comer ou dormir. A criança também pode sofrer de outras desordens neurológicas ou biológicas. Por exemplo, 20 - 30% dos casos apresentam ocorrências epiléticas durante a infância e a adolescência.

O problema crucial da pessoa autista - principalmente no que se refere à sexualidade - é sua inabilidade para iniciar, manter ou compreender um relacionamento social com outras pessoas. Independentemente de seu nível cognitivo e de suas habilidades de linguagem e a despeito de ter ou não interesse em ter contato com outras pessoas, a pessoa autista sofre de um distúrbio básico no que concerne a sua habilidade de interagir socialmente. Este distúrbio pode acarretar rejeição das pessoas que a cercam, resultando em afastamento da pessoa autista.

Na época da juventude e depois na idade adulta, maioria das pessoas com autismo conseguem continuar desenvolvendo-se em diferentes áreas (Mesibov 1983, Pedersen et al 1985). Todavia a deficiência social e de comunicação, mantêm-se como um problema definitivo. Os comportamentos ritualistas e estereotipados parecem diminuir, os problemas com sono e alimentação desaparecem e a hiperatividade diminui consideravelmente. As habilidades práticas e de cuidados consigo mesmo continuam desenvolvendo-se. O interesse em interagir socialmente torna-se mais aparente em alguns jovens e adultos autistas. Por outro lado, a falta de experiência de interação e comunicação social na infância, mais tarde torna-se evidente através da dificuldade em perceber os estados mentais das outras pessoas e empatizar com elas.

Os jovens e adultos autistas têm dificuldades inclusive em expressar os próprios sentimentos de uma forma que os outros possam compreendê-los e aceitá-los. O casamento parece não ser a única coisa que as pessoas autistas não conseguem. Fazer novas amizades ou ter amigos parece fora de questão para a pessoa autista. Mesmo que ele funcione em um nível intelectual alto e seja capaz de cuidar dele mesmo em um contexto diário normal, a pessoa autista vai dar sempre uma impressão ingênua e imatura.

Outro problema básico da pessoa autista é a inadequação ou falta do uso da imaginação. A falta de habilidade em perceber e compreender expressões emocionais em outras pessoas parece relacionar-se com a limitação, ou mesmo falta, da capacidade de imaginar qualquer coisa. A habilidade para imaginar o que possa acontecer em resposta a uma ação e para reter experiências anteriores e suas consequências formando um repertório que ajude a antecipar o que vai ocorrer a curto ou longo prazo, parece totalmente fora do alcance das pessoas autistas. Como resultado aparecem ações impulsivas ou uma forma rígida e imprevisível, mesmo ritualística, de organizar as próprias ações. As deficiências básicas que caracterizam a pessoa autista tem um profundo efeito sobre o seu desenvolvimento sexual.

Sexualidade e autismo

Como já mencionamos, existe hoje um escasso material empírico sobre o comportamento sexual das pessoas autistas. Entretanto, é obvio que os distúrbios abrangentes que o autismo acarreta devem trazer problemas importantes no desenvolvimento da conduta sexual.

A sexualidade é parte do desenvolvimento do organismo e do processo maturação, em conecção com o desenvolvimento dos sistemas nervoso, metabólico e hormonal. A sexualidade se desenvolve através da interação social e da comunicação, através do contato físico, dos jogos e da assimilação de normas e regras sociais. A sexualidade é uma experiência emocional consigo mesmo e com os outros. Sexualidade é fantasia, isto é, é a capacidade de imaginar, uma capacidade que se baseia na percepção, na compreensão e em conceitos simbólicos pescados na corrente de nossas experiências diárias. Sexualidade é desejo, excitação e orgasmo. Deve ser descoberta, experimentada e praticada. Isto pode ocorrer em jogos, sozinho ou com outros.

O desenvolvimento e processo de maturação das pessoas autistas pode ser afetado pelo grande número de desordens em seu sistema nervoso, no metabolismo e no processo hormonal. Como a epilepsia é frequente, é comum também o uso de medicação. Remédios antipsicóticos são frequentes para a diminuição da agressividade e de condutas auto destrutivas e podem afetar a sexualidade. Estudos com pacientes psiquiátricos adultos sugerem que o uso de neurolépticos pode inibir a libido, a ereção e a ejaculação. (Mitchell&Popkin, 1983;Hertof, 1987).

Por outro lado sabemos que a interação social, a comunicação e o contato físico são áreas primariamente afetadas nas pessoas autistas. Sabemos que eles têm muita dificuldade, ou mesmo incapacidade, para empatizar com outras pessoas e que eles também têm problemas para entender e expressar seus próprios sentimentos, necessidades e desejos. Sabemos que sua fantasia e uso da imaginação não existem ou são muito limitadas e sabemos que sua tendência para ritualizar e repetir padrões de comportamento de forma estereotipada os impede de experimentar a vida. Eles têm restrições na capacidade de relatar experiências tanto no contexto físico como no psicológico.

A puberdade, com o crescimento repentino e as mudanças na aparência física que e a acompanham e o aparecimento de caracteres sexuais, pode acarretar ansiedade na pessoa autista. Uma jovem autista descrevia a horrível sensação que ela sentia ao redor de seu clitóris. Algumas vezes ela se dirigia à sensação, pedindo-lhe para parar. Em situações extremas, ela podia até bater-se. Ela se recusava a tocar-se, não por ter medo da sensação mas por pensar no ato de tocar-se como "muito desagradável". Um jovem autista dizia ter medo de que seu pênis caísse, quando ereto.

A falta de compreensão das normas e regras sociais pode levar uma pessoa autista a tirar a roupa ou masturbar-se em público. A falta de empatia pode fazer com que um autista tente tocar, beijar ou abraçar uma pessoa estranha. Uma pessoa autista pode dirigir também sua atenção para crianças menores. A despeito do fato do jovem autista não ser capaz de namorar, o desejo de ter um namorado ou namorada pode tornar-se uma obsessão. A dificuldade em aproximar-se dos outros na tentativa de estabelecer um relacionamento amoroso e/ou a rejeição ao contato físico com conotações sexuais pode levar à frustração e resultar em agressividade ou comportamentos auto agressivos. A pessoa pode isolar-se ou desistir inteiramente de sua sexualidade.


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Esta página foi construída em 02/03/2002, a última atualização 19/06/2003

Créditos: Eduardo Henrique Corrêa da Silva