AUTISMO – PEREGRINAÇÃO


A gestação do Alexandre correu bem .

Nasceu em 05 de agosto de 1994 , por cesárea programada , sem nenhuma complicação . As primeiras medidas foram : apgar 7 no 1º minuto, 54cm , peso 3750 g , olhos castanhos , pele rosada .

Desde a maternidade a sua preferência sempre foi a materna , ao contrário do irmão mais velho .

Em abril de 1995 ficou em pé , pela primeira vez , com ajuda da mãe .

O primeiro sorriso foi no dia 23/09/94 .

Assentou-se pela primeira vez em fevereiro de 1995 .

O primeiro dente saiu no dia 20/03/95 .

Começou a andar pouco depois de um ano de idade .

Até os 3 anos aguardamos pelas primeiras palavras . Três anos porque o irmão começou a falar nessa idade . Esse era nosso referencial de normalidade , mesmo porque em nossa família era comum essa fala tardia .

Com 2 anos foi colocado no maternal da escolinha Tatu Bolinha , onde nossas ansiedade pelo inicio da fala começou a se transformar em preocupação . A escola começou a sugerir problema auditivo pois parecia não ouvir o chamado das pessoas . Na escola também gostava de brincar sozinho , ia para um canto brincar com coisas de sua preferência , a professora desviava os coleguinhas para a atividade do Alexandre , que largava o que estava fazendo e partia para outra atividade ou brinquedo .

Essa estranheza atribuíamos a uma personalidade mais fechada , ao contrário do irmão que chegava a nos preocupar pela extrema sociabilidade . O Alexandre sempre recusou o colo da maioria quase absoluta das pessoas , dificilmente saia do nosso colo para outro , até os avós se enquadravam em outros .

O Alexandre apesar de sua boa saúde , um tourinho como dizia a pediatra , ocasionalmente ( umas quatro vezes por ano ) precisava de uma atenção médica . Em termos de doenças teve praticamente todas as doenças do irmão . Depois dos 2 anos de idade , numa consulta dessas ocasionais , colocamos nossa preocupação para a pediatra , que falou para aguardarmos mais uns 6 meses . Após esse período e em uma dessas consultas ocasionais , colocamos novamente a questão para a pediatra , que sugeriu autismo e nos encaminhou para uma psicóloga .

Era julho de 1997 , procuramos a psicóloga indicada , que reuniu-se somente conosco , pais , nos fez várias , muitas perguntas relativas ao Alexandre , depois seguiram-se 4 seções de psicanálise , durante 1 mês . Após esse prazo cobramos um diagnóstico . Ela colocou duas possibilidades : 1- Problema auditivo , 2- Desvio de comportamento . Para o caso de problema auditivo recomendou testes específicos com fonoaudiólogo . Em Sete Lagoas , não havia quem fizesse esses testes . Para o desvio de comportamento disse que era possível com psicanálise ou similar resolver o problema . A suspeita de autismo foi definitivamente descartada .

Veio o alívio , fim da preocupação , o Alexandre não era autista .

Nessa mesma época , um pouco antes colocamos o Alexandre , em experiência na escola que atualmente está e onde o Fábio já estudava , a CEI – Cooperativa de Ensino Integrado . Pelo problema da fala , houve alguma resistência em matricula-lo , pois a primeira impressão era a de problemas auditivos , ou surdez . A escola ficou aguardando os resultados dos testes audiológicos para aceitar a matrícula . Fizemos os teste no Instituto Izabela Hendrix , onde foram feitos testes qualitativos (pela observação da reação facial diantes de vários tipos e intensidades de som ) e quantitativo medido com o auxílio de equipamento . O resultado já era esperado por nós , AUDIÇÃO CONDIZENTE COM OS NÍVEIS NORMAIS . De posse desses resultados , já em agosto de 1997 e com o parecer da psicóloga , conseguimos matricular o Alexandre .

Já no final de 1997 , antes de finalizar o ano letivo , estávamos novamente preocupados com a fala que ainda não viera e com o comportamento cada vez mais estranho . Se ele tinha uma boa audição , porque ainda não falava ? Se o problema era a fala o profissional indicado era o fonoaudiólogo . Assim marcamos consulta com referido profissional e o Alexandre começou o tratamento ou terapia , como poderia ser chamado . Seguiram-se 10 seções . Nenhum resultado pode ser percebido , a não ser o visível cansaço da fonoaudióloga ao final de cada seção . Encerramos essas seções também .

Uma amiga nossa , uma pediatra , nos disse que seu filho teve uma tal de DDA , hiperatividade , que ela tratou com um neuropediatra muito conceituado . Que o problema do filho foi resolvido com medicação . Resolvemos seguir essa linha . Era final de ano resolvemos deixar a consulta com o neuropediatra para o inicio do ano seguinte . Assim fizemos , procuramos o tal neuropediatra . Em menos de 15 minutos ele disse : Esse tipo de problema é muito comum aqui em meu consultório , se trata de autismo . Não é a minha área , mas vou fazer os testes para descartar qualquer problema neurológico . Ele nos mostrou um livro com o DSM-IV , que segundo ele não era o ultimo , com os critérios anaminéticos a serem usados , lemos , não concordamos muito , pois achamos os testes feitos por ele muito vagos . Tentei argumentar , dentro do tal critério . A minha impressão de pai foi que o médico se colocou numa posição de senhor absoluto do conhecimento e que qualquer informação vinda de mim era irrelevante . Não gostei do diagnóstico precipitado , mas engoli .

Providenciamos os testes pedidos . Exame de sangue e urina para verificar as dosagens enzimáticas ( enzimas que afetam diretamente o funcionamento do cérebro ) , eletroencefalograma , e tomografia computadorizada . Todos os testes deram normal , exceto o de dosagem enzimática que apontou várias dosagens abaixo dos níveis considerados normais .

Retornamos ao neuropediatra , que olhou os exames e disse : tudo normal . Questionamos em relação aos níveis dos testes enzimáticos e ele disse que o problema é quando os níveis estão acima , e não abaixo . Ele nos indicou alguns psiquiatras infantis , que não procuramos .

Mobilizamos todas as pessoas , nossas conhecidas da área médica para coletar informações sobre o último diagnóstico e assim começaram a aparecer nomes de profissionais que trabalhavam com autismo . Escolhemos os mais referenciados .

Marcamos consulta com o Walter Camargos Junior , psiquiatra infantil .Contamos nosso problema . Ele nos perguntou o que queríamos saber . Nos dissemos : queremos um diagnóstico . Ele disse : ele é autista ( o 2º diagnóstico de autismo ) .

Paralelamente procuramos o Centro de Referência da Criança em Sete Lagoas , que após 1 mês de seções ( 4 ) nos deu o diagnóstico : Vamos ficar com o diagnóstico de autismo ( o 3º diagnóstico ) . Agora podemos aceitar .

Nos foi jogada na cara a etiqueta AUTISTA , mas nenhum dos médicos que deu o diagnóstico acrescentou mais , ou alguma palavra de esperança ou conforto . Um nos disse , após indagado sobre o prognóstico para o Alexandre , que uma pessoa normal nos dias de hoje não está tendo chances o que se diria de um autista .

Já outro disse que não é problema , que ele ficaria um pouco atrasado em relação às crianças de sua idade , mas com terapia , aos poucos ele iria alcança-los .

Pouco antes dos diagnósticos de autismo , colocamos o Alexandre na aula de natação . Ele aceitou a aula sem problemas , mas não atendia à professora . Observamos que nos dias de natação ele ficava mais calmo , Observamos também o mesmo efeito , depois de caminhadas .

Passamos a dar caminhadas diárias , que fez bem , não só para ele , mas também para nós . Não sabemos se por um desenvolvimento natural o Alexandre apresentou uma melhora que todos na escola , os avós , muitas pessoas reportaram para nós . Percebemos que o esforço físico melhorava a condição de autismo dele . Colocamos então no futebol , e judô. Nenhum dos dois deu certo , muito pelo contrário , o deixou-o muito agitado .

Tentamos também a musicoterapia . Nossa agenda ficou cheia , minhas manhãs ficaram todas tomadas . Como não vimos nenhum resultado positivo , retiramos da musicoterapia , Judô e futebol , mantivemos a natação . Na agenda também tinha a psicoterapia no Centro de referência da Criança . As seções com a psicóloga e terapeuta ocupacional não estavam mostrando nenhum resultado. A terapia não tinha uma meta a se atingir e também nenhum prazo limite , então retiramos essa atividade também .

Em maio de 1998 , procurei o APAE para saber se lá haviam autistas sendo acompanhados . Haviam aproximadamente 5 autistas . Aproveitei para conhecer o serviço . Essa foi a primeira vez que tive contato com o objeto da sigla conhecida por mim desde minha infância . Até então APAE era só APAE , hoje significa Associação de Pais e Amigos de Excepcionais . Os APAEs não tratam ou acompanham uma deficiência específica e sim várias , inclusive autismo . Após conhecer o serviço , fiquei muito impressionado e despindo-me de preconceitos comecei a pensar na idéia do Alexandre ser lá acompanhado . Chegamos a providenciar parte dos procedimentos necessários ao ingresso . Antes porém entramos em contato com uma amiga nossa , também mãe de autista e que está a bem mais tempo nessa peregrinação . Ela os desencorajou sem de forma alguma , desabonar o serviço . Ela nos disse , o que comprovamos hoje , que o autista , apesar de não parecer aprender , aprende sim , mas da forma e rítimo dele . Coloca-lo em turmas especiais , ou de diferentes , só iria torna-lo mais diferente , pois ele iria aprender coisas de outras deficiências , complicando ainda mais o quadro .

Toda essa atividade e atenção para o Alexandre , principalmente dado por mim , seu ídolo nato , provocou no Fábio um efeito negativo que veio a se manifestar no aproveitamento escolar . Aparece um novo item na agenda : as aulas de reforço do Fábio . Essas aulas duraram quase todo o ano de 1998 , mas deu resultado e no final de outubro os professores disseram que ele já estava acompanhando a turma e que não mais precisava das aulas de reforço . Não só a escola , com o reforço , mas nós pais passamos a procurar dar mais atenção a ele .

Queríamos tentar a equoterapia , não foi possível . No início de novembro fomos num restaurante onde tinha um pesque-pague e cavalos para os clientes . Aproveitamos a oportunidade . Colocamos o Alexandre num cavalo . Seu coraçãozinho disparou . Ele já estava em cima do cavalo . Gostou muito , mas se acostumou rápido .

Já estamos em novembro de 1998 , quase no fim do ano letivo , o Alexandre já fala muitas palavras , emboladas , mas dá para entender o que quer dizer . Nesse ponto estamos em tempo real , o Alexandre tem 4 anos e 3 meses de idade . Esse ano parece Ter durado uma eternidade , muitos dias , semanas , meses de depressão , de medo do desconhecido , de falta de perspectiva , de falta de onde nos apoiarmos .


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Esta página foi construída em 02/03/2002, a última atualização 19/06/2003

Créditos: Eduardo Henrique Corrêa da Silva