AUTISMO-BR
PRIMEIRAS DESCRÕES
Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo
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Em 1906, Plouller introduziu o adjetivo autista na literatura psiquiátrica. Na época, ele estudava o processo do pensamento de pacientes que faziam referências a tudo no mundo e à sua volta, consigo mesmo, num processo considerado psicótico. Estes pacientes tinham o diagnóstico de demência precoce, que ele mudou para esquizofrenia, também introduzindo este termo.

Em 1943, um psiquiatra infantil, Leo Kanner, da John Hopkins University (E.U.A.), descreveu um grupo de crianças gravemente lesadas que tinham certas características comuns. A mais notada era a incapacidade de se relacionar com pessoas. Ele utilizou o adjetivo empregado por Plouller e intitulou o seu trabalho de "Autistic Disturbance of Affective Contact" (Distúrbio Autístico do Contato Afetivo). Usou, pois, esta palavra para descrever a qualidade de relacionamento daquelas crianças ( nota: autismo para descrever auto suficiente).

O uso da palavra AUTISMO, ficará mais claro no texto adiante, onde sÃo apresentados os 11 casos iniciais, nos quais Leo Kanner se baseou para iniciar seu trabalho.

Os textos que se seguem foram extraído da home page da AMA.


Caso-1 Donald - 5 anos
Caso-2 Frederick - 6 anos
Caso-3 Richard - 3 anos
Caso-4 Paul - 5 anos
Caso-5 Barbara - 8 anos
Caso-6 Virginia
Caso-7 Herbert - 3 anos
Caso-8 Alfred - 3 anos
Caso-9 Charles - 4 anos
Caso-10 John - 2 anos
Caso 11 Elaine - 7 anos

DISCUSSÃO

As onze crianças (oito meninos e três meninas) cujas histórias foram apresentadas resumidamente nos CASOS 1-11 , oferecem, como era de se esperar, diferenças individuais segundo o grau de seu distúrbio, a manifestaçÃo de traços específicos, a constelaçÃo da família e o desenvolvimento passo-a-passo ocorrido ao longo dos anos. Mas, mesmo uma rápida revisÃo do material contata a emergência de diversas características essenciais e comuns e inevitáveis. Essas características formam uma única "síndrome", nunca antes mencionado, que parece ser bastante rara e provavelmente mais freqüente do que o indicado na exiguidade dos casos observados. é bem possível que algumas dessas crianças tenham sido vistas como oligofrênicas ou esquizofrênicas. Na verdade, diversas crianças de nosso grupo nos eram apresentadas como idiotas ou imbecis, sendo que uma delas ainda reside numa escola estadual para oligofrênicos e duas outras foram previamente consideradas esquizofrênicas.

A projeçÃo, "patognomônica", a desordem fundamental está na incapacidade dessas crianças de se relacionarem de maneira comum com pessoas e situações desde o começo de vida. Os pais, ao referirem-se a elas, mencionam que sempre foram "auto-suficientes"; "que vivem como que dentro da concha"; "que sÃo mais felizes quando as deixam sozinhas"; "totalmente absortas de tudo que lhes diz respeito"; "dando a impressÃo de silenciosa sabedoria"; "falhando no desenvolvimento da cota normal de consciência social"; "agindo quase como que sob hipnose". Esse nÃo é, para crianças ou adultos, um ponto de partida para iniciar uma conexÃo atual; nÃo é uma "saída" para a participaçÃo que se existia outrora. Há, desde o início, um extremo isolamento autista que, sempre que possível, desconsidera, ignora, cala qualquer coisa que chega à criança vinda de fora. Contato físico direto ou movimentos e barulhos, como ameaças, para quebrar o isolamento, sÃo ainda tratados "como se nÃo existissem", ou, se isto nÃo suficiente, ainda há o ressentimento penoso dessas crianças com a interferência que lhes é aflitiva.

Segundo Gesell, uma criança de 4 meses de idade fez um antecipado ajuste motor através da tensÃo facial e da atitude de encolher os ombros quando levantada de uma mesa ou colocada sobre ela. Gesell comentou:

é possível que uma evidência menor definitiva de tal ajuste possa ser detectado antes, no período neonatal. Embora um hábito possa ser condicionado pela experiência, a oportunidade para a experiência é quase universal e a resposta é suficientemente objetiva para merecer outras observações e registro.

Essa experiência universal é fornecida pela freqüência com que a criança é pega pela mÃe e outras pessoas. é entretanto altamente significativo o fato de que quase todas as mÃes de nossos pacientes lembram-se de seu espanto com as suas crianças porque as mesmas nunca manifestavam antecipadamente uma postura preparatória para serem carregadas. Um pai lembrou-se que sua filha (Barbara) nÃo mudou nem um pouco, durante anos, sua fisionomia ou posiçÃo, quando os pais, ao chegar em casa depois de algumas horas de ausência, aproximavam-se do berço falando com ela e tomando-a nos braços.

A criança normal aprende em seus primeiros meses de vida a adequar o corpo à posiçÃo em que fica quando carregada. Nossas crianças nÃo eram capazes de fazer isso até os dois ou três anos. Tivemos a oportunidade de observar Herbert, com 38 meses, em tal situaçÃo. Sua mÃe o informava, com termos apropriados, que ia levantá-lo, estendendo os braços em sua direçÃo. NÃo havia resposta. Ela o levantava assim mesmo e ele a deixava fazê-lo, permanecendo, porém, completamente passivo como se fosse um saco de farinha. Era a mÃe que tinha que fazer toda a acomodaçÃo. Herbert era, naquele tempo, capaz de sentar, ficar de pé e andar.

Oito das crianças alunas adquiriram a habilidade de falar ou na idade aprazada ou depois de algum atraso. Três (Richard, Herbert e Virginia) permaneceram "mudos" em tais circunstâncias. Nenhuma dessas oito crianças "falantes" serviu, num período de anos, para transmitir um significado às outras. Elas eram, com exceçÃo de John F., capazes de uma clara articulaçÃo e fonaçÃo. Nenhuma dificuldade com a nomeaçÃo dos objetos apresentados; mesmo palavras longas e incomuns eram aprendidas com notável facilidade. Quase todos os pais registraram, geralmente com muito orgulho, que as crianças aprenderam cedo a repetir um excessivo número de rimas infantis, preces, lista de animais, o rol de presidentes, o alfabeto de frente para trás e de trás para frente e mesmo canções de ninar estrangeiras (francesas). Ao lado do recital de sentenças contidas nos poemas feitos ou outras peças relembradas, houve um longo hiato de tempo antes que elas começassem a juntar as palavras. Por outro lado, a "linguagem" consistia principalmente em "nomear", em nomes que identificassem os objetos, adjetivos que identificassem cores e números que indicavam nada de específico.

Sua excelente memória para listas, acoplada à inabilidade para usar a linguagem de outra forma, levou com freqüência os pais a abarrotá-las com mais e mais versos, termos de zoologia e botânica, títulos de compositores que faziam sucesso em disco e coisas semelhantes. Dessa maneira, desde o começo, a linguagem que as crianças nÃo usavam com propósito de comunicar-se era desviada consideravelmente para uma auto-suficiência, uma semântica e conversa sem valor ou para um exercício de memória totalmente distorcido. Para uma criança de 2 a 3 anos de idade, todas essas palavras, números e poemas ("perguntas e respostas de catecismo presbiteriano", "concerto de violino de Mendelssohn", o "Salmo Vinte e Três", a cançÃo de ninar francesa, a página de índice de uma enciclopédia), poderiam dificilmente ter mais significado do que uma série de sílabas disparatadas para os adultos. é difícil saber com certeza se um empanturramento desses flui essencialmente no processo da condiçÃo psicopatológica. Mas também é difícil imaginar que ele nÃo corte profundamente o desenvolvimento da linguagem como ferramenta para receber e dar mensagens significativas.

No que concerne à funçÃo comunicativa da fala, nÃo há diferença fundamental entre as oito crianças falantes e as três mudas. Certa vez, a "Tia" de Richard entreouviu-o dizer distintamente "Boa Noite". Um justificado ceticismo sobre essa observaçÃo foi mais tarde agastado quando essa criança "muda" foi vista no consultório mexendo a boca numa silenciosa repetiçÃo de palavras quando requisitado para dizer certas coisas. A "muda" Virginia – sua companheira de chalé insistiu no assunto – foi ouvida quando dizia repetidamente "chocolate", "marshmallow", "mama", "nenê".

Quando as sentenças sÃo finalmente formadas, por um longo tempo as crianças procedem como papagaios, repetindo as combinações de palavras ouvidas. Elas sÃo, às vezes, ecoadas imediatamente, mas quase sempre sÃo "estocadas" pela criança e pronunciadas mais tarde. Pode-se, se se quiser, falar em ecolalia retardada. A afirmaçÃo é indicada pela literal repetiçÃo de uma pergunta. "Sim" é um conceito que a criança leva muitos anos para alcançar. Elas sÃo incapazes de usá-lo como um símbolo geral de assentimento. Donald aprendeu a dizer "Sim". Essa palavra entÃo passou a "significar" somente o desejo de ser colocado no ombro do pai. Foram precisos muitos meses para que ele pudesse desligar a palavra "Sim" dessa situaçÃo específica e foi preciso mais tempo ainda para que fosse capaz de usá-lo como um termo geral de afirmaçÃo.

O mesmo tipo de literalidade existe também no que toca a preposições. Quando perguntado "Sobre o que é essa gravura?", Alfred replicou: "Pessoas movendo sobre".

John F. corrigiu uma declaraçÃo do pai sobre quadros na parede: os quadros estavam "perto da parede". Donald T., quando pediram que deixasse algo cair, colocou-o prontamente no chÃo. Aparentemente, o significado de uma palavra torna-se inflexível e só pode ser usado com a conotaçÃo adquirida originalmente.

NÃo há dificuldade com os plurais e tempos de verbo. Mas a ausência de espontaneidade na formaçÃo da sentença e a ecolalia tipo reproduçÃo têm, em cada uma das oito crianças falantes, dado ligar a um peculiar fenômeno gramatical. Pronomes pessoais sÃo repetidos exatamente como sÃo ouvidos, sem as mudanças que a situaçÃo alterada exige. A criança, quando a mÃe falou "Agora vou dar o seu leite", expressou o desejo pelo leite pronunciando exatamente as mesmas palavras. Consequentemente, acaba falando de si própria como "você" e da pessoa a quem se dirige como "eu". NÃo somente as palavras, mas também a entonaçÃo é conservada na memória. Se a observaçÃo original da mÃe foi feita em forma de pergunta, é reproduzida com a forma gramatical e a inflexÃo de uma pergunta. A repetiçÃo de "Você está pronta para a sobremesa?" significa que a criança já pode comer a sobremesa. Há um jogo, uma frase que nÃo deve ser mudada para cada ocasiÃo específica. A fixaçÃo pronominal permanece até o sexto ano de vida, quando a criança aprende gradativamente a falar de si própria na primeira pessoa, e daquele a quem se dirige na segunda. No período de transiçÃo ela, às vezes, volta à forma primitiva ou refere-se a si próprio usando a terceira pessoa.

O fato de as crianças fazerem eco de coisas ouvidas nÃo significa que "nos escutam" quando lhe falamos. Freqüentemente sÃo precisas numerosas reiterações de uma pergunta ou ordem para que se obtenha uma simples resposta em eco. Nada menos do que sete entre as crianças, por essa razÃo, foram consideradas surdas ou duras de ouvido. Há uma toda-poderosa necessidade de nÃo serem perturbadas. Tudo que vem de fora até a criança, tudo que muda seu clima externo e mesmo interno representa uma espantosa intrusÃo.

O alimento é a primeira intrusÃo vinda de fora sofrida pela criança. David Levy observou que as crianças com fome de afeto, quando colocadas em lares adotivos onde sÃo bem tratadas, no início requerem quantidades excessivas de alimento. Hilde Bruch, em seus estudos sobre crianças obesas, constatou que o fato de viver comento acontece quase sempre quando as manifestações de carinho por parte dos pais sÃo insuficientes ou consideradas insatisfatórias. Nossos pacientes, ao contrário, ansiosos por manterem o mundo exterior afastado, o confirmam, recusando comida. Donald, Paul, ("vomitaram bastante durante o primeiro ano de vida"), Herbert, Alfred e John apresentaram severas dificuldades alimentares desde o início de vida. Muitos deles, depois de uma luta mal sucedida, constantemente interferindo em suas vidas, desistiram por fim de lutar e de repente começaram a comer satisfatoriamente.

Outra intrusÃo vem dos grandes ruídos e objetos que se movem, que provocam, por si sós, uma reaçÃo de horror. Triciclos, balanços, elevadores, aspiradores de pó, água corrente, bicos de gás, brinquedos mecânicos, batedeiras de ovos e até o vento, podem, conforme a ocasiÃo, causar um enorme pânico. Uma das crianças tinha até mesmo medo de aproximar-se do armário em que o aspirador de pó estava guardado. Injeções e exames com estetoscópio ou otoscópio deram lugar a graves crises emocionais. Porém, nÃo e o barulho ou movimento em si que é temido. O transtorno eclode com o barulho ou movimento que causa invasÃo ou ameaça à solitude da criança. A própria criança pode alegremente fazer um barulhÃo como qualquer outro que ela rejeita e movimentar objetos a seu bel prazer.

Mas os barulhos e movimentos da criança e todas as suas performances sÃo tÃo monotonamente repetidos como suas expressões verbais. Há uma limitaçÃo marcante na variedade de suas atividades espontâneas. O comportamento da criança é governado por um desejo ansiosamente obsessivo da manutençÃo da mesmice que ninguém, salvo a própria criança pode romper em raras ocasiões. Mudanças na rotina, na disposiçÃo dos móveis, na ordem em que todo dia as ações sÃo executadas, pode conduzi-la ao desespero. Quando os pais de John estavam se mudando para um nova casa, a criança ficou desvairada quando viu os carregadores enrolarem o tapete de seu quarto. Ficou agudamente transtornado até o momento em que, na nova casa, viu seus móveis arrumados do mesmo jeito que na outra. Parecia encantado, toda ansiedade desaparecera de repente e ele andava de um lado para outro tocando afetuosamente cada peça. Como blocos, contas e varetas tinham sido postos juntos de qualquer jeito, logo foram reagrupados na forma antiga, embora nÃo tivessem um traçado definitivo. A memória da criança era fenomenal nesse particular. Depois de um lapso de vários dias, uma multidÃo de blocos foi rearranjada na mesma forma desorganizada, com blocos da mesma cor virados para cima, com cada gravura ou letra da superfície superior voltados para a mesma direçÃo, como antes. A ausência de um bloco ou a presença de um bloco extra era comunicada imediatamente e havia um pedido imperativo de reposiçÃo da peça faltante. Se alguém removesse um bloco, a criança se batia para tê-lo de volta, entrando num acesso de pânico até reavê-lo e, depois, prontamente e com súbita calma, após a tempestade, retornava ao desenho e recolocava o bloco.

Essa insistência na mesmice levou várias das crianças a tornar-se imensamente perturbadas diante da visÃo de algo quebrado ou incompleto. Uma grande parte do dia era passada na busca nÃo só da mesmice das palavras de um pedido mas também na mesmice da seqüência de eventos. Donald nÃo saía da cama, depois de um cochilo, sem antes dizer "Boo, diga: Don, você quer descer?" e a mÃe fazia por concordar. Mas isso nÃo era tudo. O ato nÃo era ainda considerado completo. Donald continuava: "Agora diga: tudo bem". Sua mÃe tinha que concordar mais uma vez por que senÃo haveria berreiro até que a performance estivesse completa. Todo esse ritual era uma parte indispensável do ato de levantar-se depois da sesta. Cada uma das outras atividades tinham que ser completadas do princípio ao fim, da maneira segundo a qual haviam começado originalmente. Era impossível voltar de um passeio sem cobrir a mesma distância que antes tínhamos percorrido. A descoberta de uma ripa quebrada na porta da garagem, em sua volta diária, transtornava tanto Charles que ele continuava perguntando e falando sobre o fato semanas a fio, mesmo quando passava alguns dias numa cidade distante. Uma das crianças notou uma fenda no teto do consultório e ficou ansiosa , perguntando várias vezes sobre quem teria feito isso e nenhuma resposta a tranqüilizava. Outra criança, ao ver um boneco com chapéu e outro sem, nÃo teve sossego até que o outro chapéu fosse encontrado e posto na cabeça desse boneco. Feito isto, perdeu imediatamente o interesse pelos dois bonecos; a mesmice e a inteireza tinham sido restauradas e tudo estava bem outra vez.

O temor da mudança e do incompleto parecem ser o principal fator na explicaçÃo da monótona repetitividade e a resultante limitaçÃo da variedade da atividade espontânea. Uma situaçÃo, uma performance, uma sentença, nÃo sÃo vistas como completas se nÃo forem executadas exatamente com os mesmos elementos que estavam presentes na hora em que, antes, a criança se confrontou com eles. Se o menor ingrediente é alterado ou removido, a situaçÃo nÃo é mais a mesma e por essa razÃo nÃo é mais aceita ou é rechaçada com impaciência ou mesmo com uma reaçÃo de profunda frustraçÃo. A incapacidade para experiências totais oriunda da completa falta de atençÃo às partes constituintes de seja lá o que for, é algo remanescente de uma condiçÃo de crianças com específica inadaptaçÃo para ler, que nÃo respondem ao sistema moderno de instruções configuradas de leitura e que precisam ser ensinadas a construir palavras com seus elementos de alfabeto. Essa é talvez uma das razões porque essas crianças do nosso grupo, que têm idade o bastante para ser imediatamente iniciadas na leitura, tornam-se excessivamente preocupadas com "soletrar" palavras ou porque Donald, por exemplo, ficou tÃo confuso com o fato de "light" e "bite", com a mesma qualidade fonética, terem que ser soletradas de forma diferente.

Objetos que nÃo mudam de aparência e posiçÃo, que conversam sua mesmice e nunca ameaçam interferir na solidÃo da criança, sÃo prontamente aceitos pela criança autista. Ela tem uma boa relaçÃo com objetos; interessa-se por eles, pode brincar com os mesmos por horas seguidas. Pode gostar muito deles ou ficar com raiva deles se, por exemplo, nÃo puder encaixá-los em um determinado espaço. Quando com eles, tem um sentimento gratificante de poder e controle incontestáveis. Donald e Charles entraram no segundo ano de vida exercendo esse poder, girando tudo que fosse possível girar e pulando em êxtase quando viam o objeto rodopiar. Frederick "saltava com muita alegria" quando jogava a bola de boliche e os pinos caíam. As crianças sentem e exercitam o mesmo poder nos próprios corpos gingando ou fazendo outros movimentos rítmicos. Essas ações acompanhadas de fervor extático indicam decididamente a presença de uma gratificante masturbaçÃo orgástica.

O relacionamento das crianças com pessoas é completamente diferente. Todas as crianças, depois de entrar no consultório, dirigiram-se imediatamente para os blocos, brinquedos ou outros objetos, sem prestar a mínima atençÃo às pessoas presentes. Seria errado dizer que nÃo tinham consciência da presença delas. Mas as pessoas, enquanto deixaram a criança a sós, representaram a mesma figura que a carteira, a estante de livros ou o arquivo. Quando se dirigiam à criança, esta nÃo se importava. Ela podia escolher entre nÃo responder absolutamente nada e, se uma pergunta fosse repetida com insistência, "dá-la por respondida" e continuar com o que estivesse fazendo. Idas e vindas, mesmo que fosse da própria mÃe, nÃo pareciam ser percebidas. A conversa que rolava pela sala nÃo despertava o mínimo interesse. Se os adultos nÃo tentaram entrar nos domínios da criança, ela o fez, às vezes nos deles, porque enquanto se movimentava para cá e para lá, tocava gentilmente uma mÃo ou um joelho da mesma forma como, outras vezes, tocava de leve na mesa ou no sofá. Mas, sem olhar para o rosto de ninguém. Se um adulto forçava uma intromissÃo e carregava um bloco consigo ou pisava em um objeto que a criança precisava, ela reagia, tornava-se irada contra a mÃo ou o pé do invasor, que era tratado de per si, e nÃo como uma parte de uma pessoa. Ela nunca dirigiu uma palavra ou um olhar ao dono da mÃo ou do pé. Quando o objeto era recuperado, o ânimo da criança mudava abruptamente e tornava-se plácido. Quando espetada, mostrava medo do alfinete mas nÃo da pessoa que a tinha picado. O relacionamento com os membros da família ou com as outras crianças nÃo era diferente do que aquele com as pessoas do consultório. Uma profunda solidÃo dominava todo seu comportamento. O pai ou a mÃe, ou ambos, podiam ausentar-se por uma hora ou um mês; quando voltavam, nada indicava que a criança tivesse consciência de sua ausência. Depois de muitos acessos de frustraçÃo, gradativa e relutantemente ela aprendeu, quando nÃo havia outra saída, a obedecer certas ordens, a cumprir deveres da rotina. Quando havia visitas, ela se movimentava entre as pessoas "como uma estranha" ou, como disse a mÃe, como um potro fora do cercado. Quando com outras crianças, nÃo brincava com elas. Brincava sozinha quando elas estavam por perto e nÃo mantinham contato físico, fisionômico ou verbal com nenhuma. NÃo tomava parte em jogos competitivos. Apenas ficava ali e, se às vezes acontecia de andar até a periferia do grupo, logo se afastava e permanecia sozinha. Enquanto isso, o nome de todas as crianças do grupo tornavam-se familiares para ela, que podia dizer a cor do cabelo de cada uma delas e mais outros tantos detalhes individuais.

Há uma melhor afinidade com gravuras de gente do que com gente ao vivo. Gravuras, afinal de contas, nÃo podem interferir. Charles estava afetivamente interessado numa gravura de criança estampada em uma revista de propaganda. Ele reparou repetidas vezes na doçura e na beleza dela. Elaine era fascinada por gravuras de animais mas nÃo se aproximava de um animal vivo. John nÃo fazia diferença entre uma foto e uma pessoa de carne e osso. Quando ele olhava uma série de fotografias, perguntava muito sério quando aquelas pessoas iam sair dali e vir para a sala.

Muito embora a maioria dessas criança fossem vez ou outra consideradas oligofrênicas, eram todas, inquestionavelmente, dotadas de boas potencialidades cognitivas. Todas tinham fisionomias impressionantemente inteligentes. Seus rostos davam a impressÃo, ao mesmo tempo, de séria determinaçÃo e, na presença de outros, de ansiosa tensÃo, provavelmente por causa de uma incômoda antecipaçÃo de possível interferência. Quando sozinhas com os objetos, têm constantemente um plácido sorriso e uma expressÃo de beatitude em seu rosto, às vezes acompanhados de um feliz embora monótono cantarolar. O assombroso vocabulário das crianças falantes e excelente memória para decorar poemas e nomes e a precisa recordaçÃo de modelos complexos e seqüências, evidencia boa inteligência no sentido em que essa palavra é comumente usada. O teste de Binet ou similares nÃo puderam ser aplicados em razÃo do limitado acesso. Todas as crianças, porém foram submetidas, com sucesso, às placas de Seguin.

Fisicamente, as crianças eram plenamente normais. Cinco delas tinham cabeças relativamente grandes. Várias eram um tanto desajeitadas para andar e nas performances de coordenaçÃo motora grossa, mas todas mostravam-se hábeis em termos de coordenaçÃo muscular fina. Os eletroencefalogramas de todas acusaram normalidade, salvo o de John, cujo fontículo anterior nÃo se fechou até seus 2 anos e meio e que com 5 anos e ¼ teve duas séries de convulsões acentuadamente no lado direito. Frederick teve um mamilo extra na axila esquerda; nÃo houve outras ocorrências no campo das anormalidades congênitas.

Há outro interessante denominador comum por trás da vida dessas crianças. Todas sÃo provavelmente de famílias muito inteligentes. Quatro pais sÃo psiquiatras, um é um brilhante advogado, outro é químico e técnico em leis, empregado do Departamento de Patentes do governo. Um outro é um patologista de plantas, outro mais um professor de florestas, um outro editor de publicidade que possui graduaçÃo em leis e estudou em três universidades; outro ainda é um engenheiro de minas e um último um homem de negócios bem sucedido. Nove dentre as onze mÃes tinham nível superior. Das duas que tinham somente chegado à faculdade, uma era secretária em um laboratório de patologia e a outra tocava um escritório de livros de teatro na cidade de Nova Iorque, antes de se casar. Entre as mÃes havia uma escritora freelance, uma física, uma psicóloga, uma enfermeira graduada e a mÃe de Frederick, que foi sucessivamente agente de compras, diretora de estudos de secretariado numa escola de jovens e professora de história. Entre os avós e parentes há muitos físicos, cientistas, escritores, jornalistas e estudantes de arte. Todas essas famílias, salvo três, sÃo mencionadas no Quem é Quem na América ou no Homens Americanos de Ciências, ou em ambos.

Duas das crianças sÃo judias, as outras sÃo de descendência anglo-saxônica. Três sÃo filhos únicos, cinco sÃo primeiros filhos numa família com duas crianças, uma outra é a mais velha de três filhos, outra é a caçula de dois e finalmente uma outra é a menorzinha de três.

COMENTáRIOS

A combinaçÃo do autismo extremo, obsessividade, estereotipia e ecolalia oferece uma ilustraçÃo completa que se conecta com alguns fenômenos básicos esquizofrênicos. O diagnóstico de algumas desta crianças, vez ou outra, indicou esse tipo de distúrbios. Mas a despeito das extraordinárias similaridades, a condiçÃo difere em muitos pontos de todas as outras instâncias conhecidas da esquizofrenia infantil.

Antes de mais nada, mesmo nos casos registrados de início de esquizofrenia, incluindo os de demência precocíssima de De Santis e de demência infantil de Heller, as primeiras manifestações que se podiam observar eram fruto de uma média de dois anos de estudo de desenvolvimento essencial; os históricos enfatizam especificamente uma mudança gradual, maior ou menor, no comportamento do paciente. As crianças do nosso grupo mostraram se exceçÃo sua extrema solidÃo desde o começo de suas vidas, nÃo respondendo a nada que lhes viesse do mundo de fora. Isto fica caracteristicamente expresso no relato recorrente sobre a deficiência da criança no assumir uma postura antecipada ao ser levantada e a deficiência em se ajustar ao corpo da pessoa que a está carregando.

Em segundo lugar, nossas crianças sÃo capazes de travar e manter uma excelente e "inteligente" relaçÃo com objetos que nÃo ameaçam interferir em sua solidÃo, mas ficam desde o início ansiosa e tensamente inacessíveis a pessoas com as quais, há muito tempo, nÃo têm qualquer tipo de contato direto afetivo. Se relacionar-se com outra pessoa se tornar inevitável, entÃo uma conexÃo é efetuada com a mÃo ou o pé desta, como um objeto decididamente desligado e nÃo com a pessoa em si.

Todas as atividades e formas de expressÃo das crianças sÃo governadas rígida e consistentemente pelo desejo poderoso de solidÃo e mesmice. Seu mundo deve ser, para elas, feito de elementos que, uma vez experimentados em um certo lugar ou seqüência, nÃo podem ser tolerados em outro lugar ou seqüência; nem podem o lugar ou seqüência ser tolerados sem todos os ingredientes originais e numa ordem idêntica espacial ou cronológica. Por isso a reproduçÃo de sentenças sem alterar os pronomes segundo a ocasiÃo. Por isso, talvez, também o desenvolvimento de uma memória verdadeiramente fenomenal que permite à criança lembrar-se e reproduzir complexos modelos "estapafúrdios", nÃo importando o quanto de desorganizaçÃo ali reine, exatamente com a mesma forma com que foram montadas na origem.

Cinco de nossas crianças estÃo agora entre 9 e 11 anos. Salvo Vivian S., que foi jogada numa escola para oligofrênicos, elas mostram um percurso muito interessantes. O desejo básico de solidÃo e mesmice permaneceram essencialmente imutáveis, mas houve um grau variante de emergir da solitude, uma aceitaçÃo de pelo menos algumas pessoas dentro da esfera de consideraçÃo da criança e um suficiente aumento do número de padrões experimentados para refutar uma prematura impressÃo da extrema limitaçÃo do conteúdo do ideário da criança. Poder-se-ia, talvez, colocar isto desta maneira: enquanto o esquizofrênico tenta resolver o seu problema caindo fora de um mundo do qual fez parte e com o qual teve contato, nossas crianças vÃo se ajustando gradualmente, vÃo estendendo suas antenas cautelosas para um mundo dentro do qual têm sido completamente estranhas desde o começo. Entre 5 e 6 anos abandonam aos poucos a ecolalia e aprendem espontaneamente a usar os pronomes pessoais com referência adequada. A linguagem trona-se mais comunicativa, primeiro no que toca o exercício de perguntas e respostas, e depois a maior espontaneidade na formaçÃo das sentenças. O alimento é recebido sem dificuldade. Barulhos e movimentos sÃo mais tolerados do que anteriormente. Os acessos de pânico acalmam-se. A repetiçÃo assume a forma de preocupações obsessivas. O contato com um limitado número de pessoas fica estabelecido de duas maneiras: as pessoas sÃo incluídas no mundo da criança à medida que satisfazem suas necessidades, respondem suas perguntas obsessivas, as ensinam a ler e a fazer coisas. Segundo, embora as pessoas sejam ainda encaradas como um transtorno, suas perguntas sÃo respondidas e suas ordens obedecidas relutantemente, com a conclusÃo de que será melhor agüentar tais interferências e logo estar livre para voltar para a ainda muito desejada solidÃo. Entre as idades de 6 e 8 anos, as crianças começam a brincar em grupo, nÃo ainda com os outros membros do grupo de brinquedo, mas pelo menos com periferia deste. A habilidade de ler é adquirida rapidamente, porém, as crianças lêem de maneira monótona e a estória ou a gravura movimentada é experimentada mais em partes desconexas do que em sua coerente totalidade. Tudo isto faz a família sentir que, apesar da patente "diferença" das outras crianças, há progresso e melhora.

NÃo é fácil avaliar o fato de que todos os nossos pacientes têm vindo de pais sumamente inteligentes. Uma coisa é certa: há uma grande dose de obsessividade por trás dessas famílias. Os diários bastante pormenorizados, os relatos e as freqüentes recordações, depois de vários anos, de que as crianças aprendiam a recitar vinte e cinco perguntas e respostas do Catecismo Presbiteriano, a cantar trinta e sete canções de ninar ou a reconhecer dezoito sinfonias, fornecem-nos um retrato fiel da obsessividade dos parentes.

Um outro fato destaca-se visivelmente. Em todo o grupo, há muitos pais e mÃes realmente amáveis. A maioria, pais, avós e parentes sÃo pessoas altamente preocupadas com abstrações de natureza científica, literária e artística e limitado interesse genuíno por gente. Mesmo alguns dos casamentos mais felizes resumiram-se, antes de mais nada, a frios e formais tratos. Três casamentos foram tristes equívocos. A pergunta que fazemos é se, ou até que ponto, esse fato contribuiu para a condiçÃo das crianças. A solidÃo das mesmas desde o seu começo de vida torna difícil atribuir o quadro inteiro exclusivamente ao tipo das primeiras relações matrimoniais com nossos pacientes.

Devemos, entÃo, assumir que essas crianças vieram ao mundo com inata inabilidade para travar contato afetivo normal, biologicamente fornecido, com pessoas, da mesma forma que outras crianças vêm ao mundo com inatas deficiências físicas ou intelectuais. Se essa conjectura for correta, um novo estudo de nossas crianças poderá ajudar-nos a fornecer critérios concretos relativos a noções ainda difusas sobre os componentes constitucionais da reatividade emocional. Por hora parece que temos exemplos de pura cultura sobre distúrbios autistas inerentes ao contato afetivo.







Página construída em 02/03/2002, atualização 10/11/2007
Créditos: Eduardo Henrique Corrêa da Silva