CASO 9

Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo

A mãe de Charles N. o trouxe a nós em 2 de fevereiro de 1943, com 4 anos de idade, e sua principal queixa era de que "O que mais me transtorna é o fato de não conseguir entender meu filho". Ela apresentou seu relatório dizendo: Estou tentando seriamente não governar minhas observações pelo conhecimento profissional que no momento faz parte de minha própria maneira de pensar.

Como criança o menino era inativo, "lento e apático". Deitado no divã, ali ficou, com os olhos arregalados, só olhando. Agia como que hipnotizado. Parecia concentrar-se em fazer uma coisa de cada vez. Suspeitou-se de hipotiroidismo, e lhe foi ministrado extrato de tiróide sem ter havido mudança no quadro geral.

Seu prazer e gosto pela música, encorajou-me a tocar discos. Quando ele tinha um ano e meio de idade, podia diferenciar dezoito sinfonias. Reconhecia o compositor, logo que o primeiro movimento começava. Ele dizia "Beethoven". Com a mesma idade, começou a girar brinquedos, tampas de garrafa e potes a toda hora. Tinha grande habilidade na mão esquerda para fazer girar cilindros. Ao olhá-los girar, ficava severamente excitado e pulava para cima e para baixo em êxtase. Agora anda interessado em refletir luz nos espelhos e caçar os reflexos. Quando ele fica interessado em algo, ninguém pode demovê-lo. Não presta atenção em mim e dá mostras de não me reconhecer quando entro na sala...

O mais impressionante de tudo é seu desligamento e sua inacessibilidade. Ele anda como se estivesse nas sombras, vive em um mundo próprio no qual não se pode penetrar. Nenhum senso de relacionamento com as pessoas. Ele passou por um período em que as notava – mas ele mesmo nunca dá nada de si. Toda sua conversa é uma réplica de algo que já lhe foi dito. Ele fala de si próprio na segunda pessoa e agora, às vezes, na terceira; ele diz "ele quer" – e não "eu quero".

É destruidor; a mobília de seu quarto está em pedaços. Ele pode quebrar um lápis púrpura em duas partes e dizer "Você tinha um bonito lápis púrpura e agora tem dois pedaços. Veja o que você fez".

Ele desenvolveu uma obsessão por fezes, que esconde em qualquer lugar ( por exemplo, nas gavetas) e me arrelia se ando pelo quarto: "Você manchou suas calças, agora não pode ter de volta seus lápis!".

Para culminar, ele ainda não está treinado para usar o banheiro. Ele nunca se limpa na creche, fazendo isso quando chega em casa. O mesmo acontece quando se molha. Ele se orgulha de ficar molhado, pula de cá e de lá, dizendo, "olha para a grande poça que ele fez".

Quando está no meio de outras pessoas, nunca olha para elas. Julho passado, tínhamos em casa um grupo de pessoas, quando Charles entrou, parecia um potro fora do cercado. Ele não prestou atenção nelas, mas sentiu sua presença. Inventou uma voz e cantou e algumas pessoas não notaram nenhuma anormalidade na criança. Na escola, ele nunca se mistura a um grupo, desliga-se do resto das crianças exceto quando há reunião; se houver música, ele vai para a primeira fila e canta.

Ele tem uma estupenda memória para palavras. O vocabulário é bom, salvo o uso de pronomes.

Ele nunca inicia uma conversa e sua conversa é limitada – vai somente até onde os objetos vão.

Charles nasceu normalmente, foi uma criança planejada e desejada. Ele sentou com seis meses e andou com menos de quinze meses – "um dia ficou de pé e andou – sem engatinhar preliminarmente". Não teve nenhuma das costumeiras doenças infantis.

Charles é o mais velho dos três filhos. O pai, que foi até o colegial, é um comerciante de roupas. Descrito como "uma pessoa que se fez sozinha, gentil, calmo, uma pessoa tranqüila". "A mãe tem um escritório bem sucedido em Nova Iorque, onde trabalha com discos e livros de teatro e é de uma notória serenidade". As outras duas crianças tinham 28 e 14 meses de idade na época da visita de Charles à clínica. A avó materna, "muito dinâmica, enérgica, hiperativa, quase hipomaníaca", escreveu e compôs um pouco. A tia materna, "psiconeurótica, muito brilhante, dada a histerias", escreveu poemas e canções. Outra tia foi mencionada como "a amazona da família". Um tio materno, um psiquiatra, tem considerável talento musical. Os parentes do pai foram descritos como "gente simples e comum".

Charles era um menino bem desenvolvido, de aparência inteligente, com boa saúde física. Usava óculos. Quando ele entrou no consultório, não prestou a mínima atenção nas pessoas presentes ( 3 médicos, sua mãe e seu tio).

Sem olhar para ninguém, disse, "eu quero um lápis!", e pegou um pedaço de papel da escrivaninha e escreveu algo semelhante ao número 2 ( um grande e saliente calendário mostrava o número 2 – estávamos no dia 2 de fevereiro). Ele havia trazido consigo um exemplar do Readers Digest e estava fascinado pela estampa de um bebê, e disse, "olhem para este bebê – ele não é engraçado?", inúmeras vezes, acrescentando de vez em quando, "não é engraçado? não é um doce? ".

Quando lhe tiraram o livreto, ele resistiu à mão que o pegou, sem olhar para a pessoa que havia feito isso. Quando picado por um alfinete, disse "o que é isso?" e, respondendo a própria pergunta "é uma agulha".

Ele olhou timidamente para o alfinete, encolheu-se com outras picadas, mas em nenhum momento pareceu associá-las à pessoa que segurava o alfinete, quando o Readers Digest lhe foi tomado, jogado no chão e um pé foi posto em cima, ele tentou remover aquele pé como se fosse um objeto a parte que estivesse interferindo, sempre sem ligá-lo à pessoa a quem o pé pertencia. Ele então virou-se para a mãe e disse, "eu dou ele pra você!".

Quando se confrontou com uma prancha de Seguin, interessou-se principalmente pelos nomes das formas antes de colocá-las nos devidos buracos. Várias vezes ele fez as formas girarem, saltando com excitação para cima e para baixo enquanto elas estavam em movimento. Toda a performance foi muito repetitiva. Ele nunca usou a linguagem como um meio de comunicação com as pessoas. Lembrava de nomes como "octógono", "losango", "bloco oblongo", mas assim mesmo continuava perguntando "o que é isto?".

Ele não respondia ao ser chamado e não olhava para a mão quando ela lhe falava. Quando os blocos foram retirados, ele guinchou, bateu os pés e gritou. "Eu darei eles para você!" (significando "Você deve dá-los para mim"). Tinha movimentos muito ágeis.

Charles foi matriculado na escola Devereux.


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Esta página foi construída em 02/03/2002, a última atualização 19/06/2003

Créditos: Eduardo Henrique Corrêa da Silva