CASO 8

Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo

A mãe de Alfred L. nos trouxe a criança em novembro de 1935, com três anos e meio de idade e a seguinte queixa:

Ele tem demonstrado gradativamente uma tendência marcante para desenvolver um interesse especial que domina completamente suas atividades diárias. Ele fala de outras coisinhas quando o interesse subsiste mas fica descontente quando não é capaz de entregar-se a ele (vendo-o entrando em contato com ele, fazendo desenhos sobre ele) e é difícil obter sua atenção quando fica assim preocupado... Tem também sido um problema seu grande apego ao mundo dos abjetos e o insucesso para desenvolver nele uma dose comum de consciência social.

Alfred nasceu em maio do 1932, três semanas antes do prazo marcado. Nos primeiros dois meses "a dieta alimentar causou considerável preocupação, mas, depois, ele se refez rapidamente e tornou-se um bebê excepcional, grande e vigoroso". Sentou-se com cinco meses e andou com quatorze.

A linguagem desenvolveu-se lentamente; ele parecia não ter interesse nela. Raramente ele conta uma experiência, confunde pronomes, nunca faz perguntas em forma de perguntas (com a devida inflexão). Quando fala, tem uma tendência a repetir indefinidamente uma palavra ou declaração. Também nunca diz uma sentença sem repeti-la. Ontem quando olhava um gravura disse uma porção de vezes: "algumas vacas estão na água". Nós contamos, por cinco vezes repetiu a mesma frase e parou para depois começar de novo. Nós temos tido uma boa dose de "preocupações".

Ele choraminga quando pomos o pão no forno para torrar. Fica com medo que ele queime e também que machuque. Fica perturbado quando o sol se põe. Fica aborrecido por que a lua nem sempre aparece no céu à noite. Prefere brincar sozinho; desce de um brinquedo mecânico assim que outra criança se aproxima. Gosta de trabalhar em algum projeto com caixas grandes (fazer um bonde, por exemplo) e não quer que ninguém interfira ou toque nele.

Quando impedido de chupar infantilmente o polegar por causa de artificiosas invenções mecânicas, substituía o ato colocando vários objetos na boca. Não foram raras as ocasiões em que achamos seixos em suas fezes. Pouco antes de seu segundo aniversário, ele engoliu algodão de um coelho de páscoa, aspirando-o de forma que foi necessário fazer traqueostomia. Alguns meses mais tarde, engoliu um pouco de querosene "de efeito não nocivo".

Alfred era filho único. O pai, com trinta anos na data de seu nascimento, "não se sentia bem quando ficava a sós com pessoas, era desconfiado, magoava-se facilmente, enfurecia-se facilmente, tinha que ser arrastado para visitar os amigos, ocupava o tempo livre lendo, cuidando do jardim e pescando". Ele é químico e advogado. A mãe, da mesma idade, era "psicóloga clínica" bastante obsessiva e excitável. Os avós paternos morreram cedo; o pai foi adotado por um ministro. O avô materno, um psicólogo, era severamente obsessivo, tinha inúmeros tiques, "lavava as mãos constantemente, demorava-se na análise de uma única linha, tinha medo de ficar sozinho e de estimulantes do coração". A avó, "pessoa excitável e explosiva, que fez várias palestras públicas e publicou vários livros, jogadora solitária, imensamente preocupada com assuntos financeiros". Um tio por parte de mãe fugiu de casa e da escola para juntar-se aos fuzileiros navais, tendo mais tarde, se encontrado ajustando-se esplendidamente à vida comercial".

A mãe deixou o marido dois meses depois do nascimento de Alfred. A criança ficou com a mãe e os avós maternos. "Na casa há uma creche e um jardim de infância (que a mãe vai tocando), o que cria um pouco de confusão para a criança". Alfred não viu o pai até os três anos e quatro meses de idade, quando a mãe decidiu que "ele devia conhecer o pai" e "tomou providências para que este viesse à casa ver o menino".

Depois de entrar no consultório, Alfred não prestou atenção naquele que o examinava. Descobriu imediatamente um trem na prateleira dos brinquedos, pegou-o e pôs-se a ligar e desligar os vagões de maneira lenta e monótona. Repetia várias vezes "mais trem – mais trem – mais trem". Contou sucessivamente as janelas de um vagão: "uma, duas janelas – uma, duas janelas – uma, duas janelas – quatro janelas, oito janelas". Sua atenção não se desviava do trem. Tentou-se um teste de Binet numa sala onde não havia trens. Foi possível, com muita dificuldade, vez ou outra, penetrar além de sua preocupação. Ele finalmente cedeu em muitas ocasiões de uma forma que indicava claramente que queria acabar com aquela intrusão; isto se repetiu em cada item da tarefa. No fim foi registrado um Q.I. de cento e quarenta.

A mãe não o trouxe de volta depois desta primeira consulta por causa de "sua contínua aflição quando se defrontava com um membro da equipe médica". Em agosto de 1938, ela mandou, em resposta a uma solicitação, um relato escrito de seu desenvolvimento. Foi extraído o seguinte trecho deste relato:

Ele é chamado de lobo solitário. Prefere brincar sozinho e evita grupos de crianças para brincar. Não presta muita atenção aos adultos, exceto quando quer ouvir estórias. Evita competição. Ele lê estórias simples para si mesmo. Tem muito medo de ferir-se, fala muito sobre o uso da cadeira elétrica. Entra em pânico quando alguém, acidentalmente, cobre o rosto.

Alfred voltou à baila outra vez em junho de 1941. Seus pais decidiram viver juntos. Antes disso, o garoto havia estado em onze escolas diferentes. Esteve muitas vezes de cama em decorrência de resfriados, bronquite, catapora, infecção por estreptococus, empetigo e uma condição vagamente descrita que a mãe – não obstante afirmações contrárias de vários pediatras – insistia tratar-se de "febre reumática". Enquanto esteve no hospital, disseram que se portou "como um paciente maníaco". A mãe tinha que bancar o psiquiatra e fazer diagnósticos psiquiátricos do filho. Do relatório da mãe, que combinava uma obsessiva enumeração de ocorrências pormenorizadas com "explanações" que tentavam provar a normalidade de Alfred, foram coletadas as seguintes informações:

Ele começou a brincar com crianças menores do que ele, "tratando-as como bonecos – é tudo". A criança foi empanturrada de música, de dramas e recitais e teve uma formidável ressaca de memória não podendo nem relatar:

Ele tem muitos medos, quase sempre ligados a barulhos mecânicos (moedor de carne, aspirador de pó, carros na rua, trens, etc.). Geralmente ele voa, com um interesse obsessivo para as coisas de que tem medo. Agora ele tem os latidos estridentes do cachorro.

Alfred ficou extremamente tenso durante toda a entrevista e muito seriamente disposto, e tanto, que se não fosse por sua voz juvenil, teria dado a impressão de um homenzinho ansioso e preocupado. Ao mesmo tempo, estava muito impaciente e deu mostras de forçar a fala que nada tinha de pessoal em si mas se constituiu de perguntas obsessivas sobre janelas, sombras, salas escuras, e especialmente sobre a sala de raio X. Ele nunca esboçou o mais leve sorriso. Nenhuma mudança de tópico, o desviaria de seus tópicos de luz e sombra. Mas na verdade, ele foi respondendo as perguntas do médico, que freqüentemente tinham que ser repetidas, várias vezes, como numa espécie de barganha – "Você responde minha pergunta que eu respondo a sua". Ele era esmeradamente específico em suas definições. Um balão "é feito de fibra de borracha e tem gás. Às vezes eles sobem para cima e às vezes eles podem ser guiados, e quando tem um furo neles, eles explodem; e se as pessoas os apertam eles explodem. Não é assim mesmo?". "Um tigre é uma coisa animal. Listado como um gato, pode arranhar como gente selvagem, vive na selva ou na floresta. Principalmente na selva. Não é isso?". Essa pergunta "Não é isso?", devia ser definitivamente respondida; havia aí um desejo muito sério de confirmação de que as definições tinham sido suficientemente completas.

Ele fazia constantemente confusão a respeito do significado das palavras. Perante uma mostra de gravura e a pergunta, "Sobre o que é esta gravura?" ele retrucou, "Gente se movendo sobre".

Certa vez ele parou e perguntou, todo perplexo, por que o "Hospital John Hopkins" estava estampado no folheto que continha sua história : "Por que eles tem que contar isto? ". Este assunto, para ele, era um problema verdadeiro, de grande importância, sobre o qual se devia pensar e discutir, "Já que pegamos a história no hospital, por que é necessário que o nome apareça em cada página? A pessoa que escreveu não sabia onde estava escrevendo? O clínico que o examinava, de quem ele se lembra de sua visita há seis anos atrás, era para ele nada mais e nada menos que uma pessoa destinada a responder suas perguntas obsessivas sobre luz e sombra.


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Esta página foi construída em 02/03/2002, a última atualização 19/06/2003

Créditos: Eduardo Henrique Corrêa da Silva