CASO 7

Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo

Herbert B. nos foi trazido em 5 de fevereiro de 1941, com três anos e dois meses de idade. Pensava-se que tinha um sério retardo nas faculdades intelectuais. Seu eletroencéfalograma foi normal.

Herbert nasceu em 16 de novembro de 1937, duas semanas antes do prazo, através da decisão de uma cesariana. Pesava então 2 quilos e oitocentos gramas. Desde o nascimento até o terceiro mês de idade, vomitou todo o alimento que ingeria. Depois, o vômito cessou quase abruptamente e, exceto ocasionais regurgitações, prosseguiu alimentando-se satisfatoriamente. Segundo sua mãe, ele "sempre foi lento e calado". Durante um certo tempo, julgou-se que era surdo, por que "não mudava de expressão quando lhe falávamos ou quando na presença de outras pessoas; além disso não tentava falar ou formar palavras". Ele levantou a cabeça aos quatro meses e sentou aos oito, mas não tentou andar. Aos dois anos, de repente, começou a andar sem antes engatinhar ou apoiar-se em cadeira. Recusou-se terminantemente a tomar líquidos a não ser em recipientes todos de vidro. Certa vez, quando em um hospital, ficou três dias sem tomar líquido, por que este lhe era dado em canecas de estanho. Ele tinha um medo terrível de água corrente, queimadores de gás e várias outras coisas. "Fica aborrecido com a mudança de algo a que está acostumado: se se dá conta de alguma modificação, dica nervoso e chora". Mas ele próprio gostava de levantar e baixar cortinas, rasgar caixas de papelão em pedacinhos e brincar com eles por horas e fechar e abrir as folhas das portas.

Os pais de Herbert separaram-se logo após seu nascimento. O pai, um psiquiatra, foi descrito como "um homem de inteligência fora do comum, sensível, impaciente, introspectivo, que se leva muito a sério, não interessado pelas pessoas (mas em si próprio) e às vezes dado ao álcool". Sua mãe, uma física, fala de si mesma como "ativa e saliente, amante das pessoas e crianças mas com pouca vivência de seus problemas – de forma que acha mais fácil e melhor aceitar as pessoas como são do que procurar entendê-las. Herbert é o caçula de três filhos. O segundo é um menino normal, saudável. A mais velha, Dorothy, nascida em junho de 1934, depois de 36 horas de duros trabalhos de parto, parecia ligada e responsiva como um menino e pronunciou muitas palavras com dezoito meses; lá pelo fim do segundo ano de vida ela "não mostrou grandes progressos em seus relacionamentos infantis ou nos contatos com outras pessoas". Gostava que a deixassem em paz, dançava em círculos, fazia estranhos ruídos com a boca e ignorava completamente as pessoas, exceto a mãe, a quem se agarrava "em pânico e com uma agitação generalizada". (Seu pai a detestava ostensivamente). "Sua fala era muito pobre e a expressão de idéias completamente falha. Tinha dificuldades com os pronomes e repetia "você" e "eu" em vez de usá-los adequadamente". Primeiro foi declarada imbecil, depois esquizofrênica e em seguida os pais se separaram (o filhos ficaram com a mãe) e ela desabrochou. Agora freqüenta a escola onde está fazendo bons progressos; ela fala bem, tem um Q.I. de cento e oito e, embora sensível e moderadamente receosa – está interessada em gente e fica sozinha razoavelmente bem.

Quando examinado pela primeira vez, Herbert mostrou uma fisionomia extraordinariamente inteligente e boa coordenação motora. Dentro de certos limites, manifestou espantoso despropósito na busca de objetivos auto-selecionados. Dentro de um grupo de blocos, ele logo descobriu aqueles que estavam colados num quadro e aqueles que podiam ser retirados. Ele poderia construir uma torre de blocos alta, com facilidade, como qualquer criança de sua idade ou mesmo mais velha. Não podia ser interrompido nas ocupações que ele próprio escolhia. Ficava contrariado com qualquer interferência, afastando os intrusos para longe (sem mesmo olhar para eles) ou gritando se não o conseguisse.

Vimo-lo outra vez com quatro anos e sete meses e ainda com cinco anos e dois meses de idade. Ainda não falava. Em ambas as vezes entrou no consultório sem prestar a mínima atenção às pessoas presentes. Ele dirigiu-se em seguida ao quadro de Seguin e imediatamente ocupou-se, colocando as figuras em seus devidos espaços e tirando-as outra vez deles, hábil e rapidamente. Quando se interferia, ele choramingava impaciente. Quando um figura era furtivamente removida, ele notava sua falta de imediato, ficava perturbado, mas esquecia-se completamente do fato quando ela era reposta no lugar. Às vezes, quando por fim se aquietava, depois de se aborrecer por causa da remoção de figuras do quadro, ele punha-se a saltar para cima e para baixo em cima do sofá, com uma expressão estática no rosto. Não respondia ao ser chamado nem a qualquer outra palavra que lhe fosse endereçada. Ficava completamente absorto no que estava fazendo, fosse o que fosse. Ele nunca sorria. Às vezes, emitia sons inarticulados como se estivesse cantando monotonamente. Certa vez ele deu uma leve batida na perna da mãe e depois tocou a com os lábios. Levava constantemente blocos e outros objetos aos lábios. Houve uma semelhança quase fotográfica em seu comportamento durante as duas visitas, com uma importante exceção a ser levada em conta: aos quatro anos mostrou-se impressionado e afastou-se quando se acendeu um fósforo em sua frente, enquanto aos cinco sua reação foi de saltar estaticamente.


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Esta página foi construída em 02/03/2002, a última atualização 19/06/2003

Créditos: Eduardo Henrique Corrêa da Silva