Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo
Virginia S., nascida em 13 de setembro de 1931, morou na escola de treinamento do estado para oligofrênicos desde 1936, exceto um mês em 1938, quando foi enviada a uma escola para surdos "como oportunidade educativa". A doutora Esther L. Richards que a viu várias vezes, diagnosticou com clareza que ela não era nem surda nem oligofrênica e escreveu em maio de 1941:
Virginia fica afastada das outras crianças, (na escola de treinamento) por que é totalmente diferente de todas elas. É asseada e ordeira, não brinca com as outras crianças e, segundo os principais testes, não aparece como surda. Mas não fala. A menina se diverte horas a fio juntado peças de um quebra-cabeças, ajustando-as até que fiquem armados. Eu a vi, com uma caixa cheia de pedaços de dois quebra-cabeças, armar gradativamente as peças de cada um deles. Todas as conclusões apontam para a existência de uma normalidade congênita que se manifesta mais como uma personalidade anormal do que um defeito orgânico.
Virginia, a mais nova de três irmãos, era filha de um psiquiatra que confessou em dezembro de 1941: "Eu nunca gostei de crianças, o que é provavelmente uma reação pessoal à restrição de movimento (viagens) e, no mínimo, as interrupções e agitações".
Sobre a mãe de Virginia o marido disse: "Ela não é, de jeito algum, do tipo maternal. Sua atitude (em relação à filha) é como se estivesse lidando com uma boneca, um animalzinho de estimação ou algo semelhante."
Felipe, seu irmão, cinco anos mais velho, nos acusa de sua severa gagueira aos quinze anos de idade e cai em prantos quando se diz a ele que tem tudo o que deseja em casa. "O único momento", disse ele soluçando "que meu pai tem alguma coisa a ver comigo é quando me xinga por ter feito algo errado".
Sua mãe nada fez para melhorar as coisas. Ele sente que toda a sua vida foi vivida numa "atmosfera gelada" com dois estranhos inabordáveis.
Em agosto de 1938, o psicólogo da escola de treino observou quer Virginia podia responder a sons, à chamada de seu nome e a instruções, "olhe!".
Ela não presta atenção no que lhe está sendo dito mas entende com rapidez o que se espera dela. Seu desempenho reflete discriminação, cuidado e precisão.
Ela acusou, através dos itens de não-linguagem dos testes de Binet e Marill Palmer, um Q.I. de 94. "Sem dúvida", comentou o psicólogo:
Sua inteligência é superior a isso... Ela é quieta, solene, composta. Não a vi sorrir uma única vez. Ela se encolhe dentro de si mesma, segregando-se dos outros. Parece estar num mundo só dela, esquecida de tudo, mas ser o centro de interesse da situação orientada. Ela é muito auto-suficiente e independente. Quando outros invadem sua integridade, tolera-os com indiferença. Não há manifestação de amizade ou interesse nas pessoas. Por outro lado, ela encontra prazer em lidar com as coisas, através do que mostra imaginação inventiva. É típico, não há manifestação de afeição... Nota do psicólogo em outubro de 1939 – hoje, Virginia ficou muito mais à vontade no consultório. Lembrou-se (depois de mais de uma ano) onde os brinquedos eram guardados e pegou-os. Foi impossível persuadi-la a participar de procedimentos de teste, pois ela não esperava pelas demonstrações quando exigidas. Movimentos rápidos e habilidosos. Tentativa e erro seguidas de acerto. Poucos movimentos supérfluos. Um novo teste imediato reduziu o tempo e o erro a menos da metade. Há momentos, a maioria deles, em que ela fica completamente alheia a tudo, exceto a seu foco imediato de atenção...
Janeiro de 1940. A maior parte do tempo ela fica calada, como se sempre tivesse trabalhado e brincado sozinha. Nunca desafiou autoridade ou causou qualquer transtorno. Durante atividades em grupo, se torna inquieta, contorce-se, e quer sair para satisfazer sua curiosidade sobre algo que está em outro lugar. Produz alguns sons locais, chorando ao extremo se repreendida ou contrariada por outra criança. Ela canta para si mesma, de boca fechada, e, em dezembro, ouvi-a cantar com perfeição, a melodia de um hino natalino enquanto colava correntes de papel.
Junho de 1940. As meninas da escola disseram que Virginia falou algumas palavras quando estavam no chalé. Lembraram-se de que ela gosta muito de doces e disse "chocolate", "marshmellow", "mama" e "nenê".
Quem a reviu, em 11 de outubro de 1942, avistou uma menina alta, esbelta, bem vestida, de onze anos de idade. Quando chamada, levantou-se e aproximou-se, sem olhar uma única vez para a pessoa que a chamou. E ali ficou, alheia, olhado para o espaço. De vez em quando, ao responder perguntas, sussurrava "mama", "nenê". Quando se formou um grupo em volta do piano, uma criança a tocar e outras a cantar, Virginia sentou-se, dando a impressão de não notar o que estava acontecendo, de estar totalmente absorta. Não pareceu dar-se conta do momento em que as crianças pararam de cantar. Quando o grupo se dispersou, ela não mudou de posição e pareceu não ter consciência da mudança de cena. Tinha uma fisionomia inteligente embora apresentasse uma expressão vazia nos olhos.