Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo
Em fevereiro de 1942 foi recebida Barbara K., de oito anos e três meses de idade. Nas anotações escritas pelo pai se lia:
Primeira filha, nascida normalmente em 30 de outubro de 1933. Mamou muito pouco passando para a mamadeira depois de mais ou menos uma semana. Aos três meses deixou de aceitar qualquer tipo de alimentação. Foi alimentada por tubo, cinco vezes ao dia, até um ano de idade. Foi quando começou a comer, embora lhe fosse muito difícil, até os dezoito meses. Desde então passou a comer bem, gosta de experimentar comida, de saboreá-la e agora tem loucura por cozinhar.
Vocabulário comum até dois anos, mas a colocação das palavras na sentença é sempre lenta. Tem habilidade fenomenal para ler e soletrar. Boa escritora mas com dificuldades ainda nas expressões verbais. A linguagem escrita ajudou a verbal. Não se dava bem com aritmética a não ser por proeza de memória. Repetitiva quando bebê, agora também é obsessiva: retém coisas nas mãos, leva outras para a cama, repete frases, apaixona-se por uma idéia, um jogo, etc. Aferra-se a eles e, depois, vai se ocupar de outra coisa qualquer. Ela costuma falar usando "você" para si própria e "eu" para a mãe ou para mim, como se estivesse dizendo coisas que lhe estivéssemos falando.
Muito tímida, tem medo de varias coisas mutantes, vento, animais grandes, etc. Passiva a maior parte do tempo, às vezes é obstinadamente passiva. Desatenta a ponto de alguém perguntar se ela ouve. (Ela ouve!) Espirito não competitivo, nenhum desejo de agradar a professora. Se sabe alguma coisa a mais que um outro colega de classe, não o demonstra, fica calada, talvez nem se dê conta do fato.
No verão passado, foi muito apreciada no acampamento. Aprendeu a nadar, era graciosa na água (sua mobilidade sempre parecera desajeitada), superou o medo dos pôneis, brincou melhor com as crianças de cinco anos de idade. No acampamento ela adquiriu a vitaminose e desnutrição mas quase não fez queixas verbais.
O pai de Barbara era um conhecido psiquiatra. A mãe, bem educada, era uma boa mulher. Em 1937 nasceu um irmão mais novo, saudável, vivo e bem desenvolvido.
Barbara "apertava mãos", a pedido, (oferecendo a esquerda na chegada e a direita na saída) apenas levantando uma mão vacilante na direção aproximada da mão estendida do clínico; no movimento, faltava, definitivamente, a noção de comprimento. Durante todo o encontro não houve indicação de qualquer tipo de contato afetivo. Uma picada de alfinete resultou na retirada do braço, uma olhadela medrosa para o alfinete (não para o clínico) e a pronúncia da palavra "machucada!" não endereçada a ninguém em particular.
Ela não mostrou interesse no desempenho de testes. O conceito de teste, de participar de uma experiência ou situação, parecia estranho a ela. Espichava a língua e brincava com a mão como alguém o faria com um brinquedo. Atraída por uma caneta que estava sobre a carteira, ela disse: "caneta como as suas em casa". Depois, vendo um lápis, perguntou: "posso levar isto para casa?".
Quando lhe foi dito que podia, ela não fez nenhum movimento para pegá-lo. O lápis lhe foi entregue mas ela empurrou dizendo "não é o meu lápis".
Ela fez o mesmo, repetidamente, com relação a outros objeto. E disse várias vezes "vamos ver mamãe" (que estava na sala de espera).
Ela leu extremamente bem com dez anos completos, em trinta e três segundos e sem erros uma excitante história de Binet, mas foi incapaz de reproduzir de memória o que tinha lido. Nas gravuras de Binet, (ou ao menos notou) nenhuma ação ou ligação entre os itens isolados que enumerou sem dificuldades. Sua caligrafia era legível. Seus desenhos (homem, casa, gato sentado com seis pernas, abóbora, máquinas) eram destituídos de imaginação e estereotipados.
Ela usava a mão direita para escrever e a esquerda para o resto, era canhota de pés e destra de olhos.
Ela conhecia os dias da semana. Quando começou a citá-los "sábado, domingo, segunda-feira", parou por aí e disse "você vai para escola" (isto é, "na segunda-feira"), como se o assunto estivesse encerrado.
No transcorrer de todos esse procedimentos, os quais cumpria quase que automaticamente, após freqüentes e várias repetições de pergunta ou instrução, ela rabiscava palavras com espontaneidade: "laranjas", "limões", "bananas", "uvas", "cerejas", "maçãs", "damascos", "tangerinas", "panelas", "suco de melancia"; as palavras, às vezes, se precipitavam umas sobre as outras e obviamente não eram para ser lidas pelos outros.
Muito amiúde ela interrompia qualquer "conversa" que se relacionava com "transportes motores" e "a cavalo", o que – segundo o pai o deixou preocupado por algum tempo. Ela disse, por exemplo, "Eu vi os transportes". "Eu vi a cavalo quando fui para a escola".
Sua mãe observava, "Complementações a fascinam, como também uma voluta de fumaça ou um pêndulo". Seu pai declarou previamente: "Manifesta-se nela um recente interesse por assuntos sexuais na hora em que tomamos banho e um interesse obsessivo por banheiros".
Barbara foi colocada nas Escolas Devereux, onde está fazendo alguns progressos no aprendizado de contar coisas suas às pessoas.