CASO 4

Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo

Paul G. compareceu em março de 1941, com idade de 5 anos, para fazer um teste psicométrico mediante o qual se pensou estar diante de uma severa deficiência intelectual. Ele foi para uma escola maternal privada, onde sua fala incoerente, incapacidade de obedecer e reações temperamentais a qualquer interferência deram a impressão de um caso de oligofrenia.

Paul, filho; único, chegou a este país procedente da Inglaterra, com aproximadamente dois anos de idade, acompanhado da mãe. O pai, um engenheiro de minas, que se supunha na Austrália, havia abandonado a esposa pouco antes, depois de vários anos de um casamento infeliz. A mãe, provavelmente de nível universitário, mulher impaciente, instável, excitável, deu uma versão vaga ruidosa e conflitante do panorama familiar e do desenvolvimento do filho. Ela levou bastante tempo enfatizando e ilustrando seus esforços para tornar Paul esperto, para ensiná-lo a memorizar poemas e canções e várias rimas infantis.

Ele nasceu normalmente. Vomitou bastante durante o primeiro ano de vida e alimentou-se de dietas mudadas constantemente com pouco sucesso. Deixou de vomitar quando começou a ingerir alimentos sólidos. Os dentes despontaram, ele firmou a cabeça, sentou, andou e controlou o intestino e a bexiga na idade certa. Teve sarampo, catapora e coqueluche, sem complicações. Suas amígdalas foram retiradas aos três anos de idade. O exame físico acusou fimose como único senão de uma boa saúde.

As seguintes características surgiram da observação feita em suas visitas à clínica, durante cindo semanas num pensionato e durante alguns dias de estada no hospital.

Paul era uma criança esbelta bem feita de corpo, atraente e seu rosto parecia inteligente e animado. Tinha boa agilidade manual. Raramente respondia a qualquer tipo de abordagem ou mesmo à chamada de seu nome. Certa vez, atendendo a um pedido, pegou um bloco do chão. Outro dia em seguida a um modelo ter sido desenhado à sua frente, ele desenhou um círculo. Às vezes, um enérgico "não faça isso!" fazia-o interromper uma atividade. Mas, geralmente, se se falasse com ele, continuava com o que estava fazendo com se nada houvesse sido dito. Também nunca foi possível detectar se estava sendo espontaneamente desobediente ou não. Ele era obviamente tão ausente que as observações não o alcançavam. Estava sempre vivamente ocupado com algo e parecia então plenamente satisfeito, a menos que alguém fizesse uma tentativa persistente para interferir nas ações que ele mesmo escolhera. Aí, ele tentava primeiro escapar disso e, se não desse certo, gritava e caia num respeitável acesso de raiva.

Havia um marcante contraste entre suas relações com gente e com objetos. Quando entrava na sala, dirigia-se imediatamente para os objetos que usava corretamente. Não era destruidor e tratava os objetos com cuidado ou mesmo afeição. Ele pegava um lápis e fazia rabiscos num papel que havia achado sobre a mesa. Abria uma caixa, tirava dela um telefone de brinquedo, sempre cantando: "ele quer telefonar", e girava pela sala com o bocal e o receptor em posição certa. Apanhou uma tesoura e paciente e habilidosamente cortou uma folha de papel em pedacinhos, cantando a frase: "cortando papel", muitas vezes. Ele arranjou-se sozinho com a maquinaria de um brinquedo, correu em volta da sala segurando-o no alto e cantando continuamente "a máquina está voando". Enquanto tais expressões vocais, entoadas sempre com a mesma inflexão, eram claramente ligadas às suas ações, ele emitia outras que podiam não estar conectadas com situações imediatas. Há alguns exemplos: "as pessoas no hotel"; "você machucou sua perna?"; "acabaram-se os bombons"; "o bombom está vazio"; "você cairá da bicicleta e baterá a cabeça". Todavia algumas dessas exclamações poderiam ter sido originadas em experiências prévias. Ele adquiriu o hábito de dizer quase todo o dia: "não atire o cachorro para fora da sacada". Sua mãe lembrou-se de que tinha dito essas palavras para ele, referindo-se a um cachorro de brinquedo quando eles ainda estavam na Inglaterra. Ao avistar uma panela, exclamava invariavelmente "Pedro-comedor". A mãe recordava-se que essa associação começara quando ele tinha dois anos de idade e ela deixara cair uma panela enquanto recitava para ele a trovinha infantil "Pedro, Pedro, comedor de abóbora". Reproduções de advertências e ferimentos corpóreos constituíam a parte principal de suas elucubrações.

Nenhuma dessas observações teve a veleidade de apontar um valor de comunicação. Não havia nisso laços afetivos com as pessoas. Ele se comportava como se as pessoas não lhe dissessem respeito ou mesmo não existissem. Não fazia diferença se alguém lhe falava de maneira amigável ou áspera. Ele nunca encarou o rosto das pessoas. Quando tinha algo em comum com alguma delas, tratava-as, ou melhor, tratava parte delas como se fossem objetos. Usava uma mão para dirigi-las. Ao brincar, dava cabeçadas na mão, como há tempos atrás fazia com um travesseiro. Permitia que a mãe o vestisse mas não prestava a menor atenção nela. Quando com outras crianças, ignorava-as, e ia direto em direção de seus brinquedos.

Sua articulação era clara e ele tinha um bom vocabulário. A construção de suas sentenças era satisfatória, com uma exceção significativa. Ele nunca usava o pronome na primeira pessoa nem se referia a si mesmo como Paul. Todas as manifestações relativas a si mesmo eram feitas na segunda pessoa, bem como as repetições literais de coisas que lhe haviam sido ditas antes. Ele expressava sua vontade de comer bombons dizendo "você quer bombons". Ele desviou a mão de um radiados quente e disse "você se machuca". Às vezes era ouvido repetindo coisas que lhe haviam sido ditas, feito papagaio.

Testes formais não puderam ser levados a cabo, mas certamente ele não podia ser tachado de oligofrênico no sentido exato da palavra. Depois de ouvir a tia do pensionato dizer "graças" três vezes, passou a repeti-lo de forma correta e desde então o guardou na memória.

Ele podia contar e nomear cores. Aprendeu depressa a identificar seus discos favoritos na pilha e sabia subir até a vitrola para tocá-los.

A tia do pensionato relatou uma série de observações que indicavam um comportamento compulsivo. Ele se masturbava muitas vezes em completo abandono. Corria em círculos emitindo frases. Pegava um pequeno xale que ficava sacudindo enquanto gritava deliciado "Ih! Ih!". Podia continuar fazendo tais coisas por muito tempo e mostrar grande irritação quando interrompido. Tudo isso e muitas outras coisas que não se tratavam somente de repetições mas que se sucediam dia após dia com uma mesmice quase fotográfica.


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Esta página foi construída em 02/03/2002, a última atualização 19/06/2003

Créditos: Eduardo Henrique Corrêa da Silva