Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo
Richard M. foi admitido no Johns Hopkins Hospital em 5 de fevereiro de 1943, quando tinha 3 anos e 3 meses de idade, sob alegação de surdez, já que não falava e não respondia às perguntas. Em seguida à sua internação, o residente fez esta observação:
A criança parece ser normalmente inteligente. Brinca com os brinquedos na cama e é convenientemente curiosa com respeito a instrumentos usados no exame. Ela parece inteiramente auto-suficiente quando brinca. É difícil dizer definitivamente se ela ouve, mas parece que sim. Ela obedece instruções. como "sente-se" ou "deite-se", mesmo quando não vê quem está falando. Não presta atenção às conversas que ocorrem à sua volta e embora não faça barulho, fala palavras desconhecidas.
Sua mãe trouxe consigo notas copiosas que indicam preocupação obsessiva com pormenores e uma tendência para ler toso tipo de interpretações relativas às performances da criança. Ela observou (e registrou) cada gesto e cada "olhar", tentando achar-lhe o significado específico e, finalmente, decidindo-se sobre um pormenor às vezes explicado muito superficialmente. E acumulava assim um acervo que, embora muito elaborado e ricamente ilustrado, revelava, em sua totalidade, mais de sua própria versão do que realmente havia acontecido em cada ocasião mencionada.
O pai de Richard é professor de tudo que diga respeito a florestas em uma universidade do sul. Ele vive totalmente imerso em seu trabalho e quase não lhe sobra tempo para contatos sociais. A mãe estudou até a faculdade. O avô materno é físico e o resto da família, de ambos os lados, é constituída de pessoas profissionalmente bem sucedidas. O irmão de Richard, 31 meses mais novo, é descrito como uma criança normal e de bom desenvolvimento.
Richard nasceu em 17 de novembro de 1937. A gestação e o nascimento transcorreram normalmente. Ele sentou-se com 8 meses e andou com 1 ano. Sua mãe começou a "educá-lo" com 3 semanas, colocando-lhe um supositório todas as manhãs, "para que seu intestino se porta-se como um relógio". Comparando os dois filhos, a mãe recordou-se que enquanto o mais novo mostrava uma reação ativa antecipada ao ser pego no colo, Richard não dava nem sinal de prontidão fisionômica ou postural e deixava de se aninhar ao ser segurado no colo por ela ou pela enfermeira. A nutrição e o crescimento físico decorreram satisfatoriamente. Vacinado com doze meses contra varíola, teve como reação um surto de diarréia e febre do qual se restabeleceu em menos de uma semana.
Em setembro de 1940, a mãe, comentando a ausência de fala em Richard, observou em suas notas: eu não tenho certeza de quando, exatamente, ele parou de imitar os sons das palavras. Parece que ele teve uma gradativa regressão mental nos dois últimos anos. Como ele não revelasse o passava em sua cabeça, pensamos que estivesse tudo bem. Agora que ele está emitindo tantos sons, estamos desconcertados por que é evidente que ele não pode falar. Antes eu pensei que ele poderia se quisesse. Ele passou-me a impressão de silenciosa sabedoria... Uma coisa intrigante e desencorajadora é a grande dificuldade que se tem para conseguir sua atenção.
Richard foi considerado saudável no exame físico, exceto com relação às grandes amígdalas e adenóides que removeu em 8 de fevereiro de 1941. A circunferência de sua cabeça era de 54,5 centímetro. Seu eletroencefalograma foi normal.
Ele dirigiu-se voluntariamente ao consultório do psiquiatra e logo pôs-se a brincar, ativo, com os brinquedos, sem prestar atenção às pessoas que estavam na sala. De vez em quando, olhava para as paredes, sorria e proferia em breve estacato vigorosos sons – "Ih! Ih! Ih!". Acatou a ordem falada e gesticulada da mãe para tirar os sapatos. Quando a ordem foi outra, desta vez sem gestos, ele se ateve à ordem anterior e tirou os sapatos (que já havia calçado de novo). Seu desempenho foi bom com os quadros não-giratórios mas não tanto com os giratórios.
Richard foi examinado outra vez com a idade de quatro anos e quatro meses. Crescera consideravelmente e ganhara peso. Diante da sala de exames, gritou e fez um enorme estardalhaço, mas acabou capitulando e entrando sozinho, voluntariamente. Lá dentro, imediatamente pôs-se a acender e apagar as luzes. Não mostrou interesse pelo clínico ou qualquer outra pessoa mas foi atraído por uma pequena caixa que acabou atirando longe como se fosse uma bola.
Com quatro anos e onze meses, seu primeiro movimento ao entrar no consultório (ou qualquer outra sala) era o de acender e apagar as luzes. Ele subiu numa cadeira e da cadeira para uma escrivaninha a fim de alcançar o interruptor na parede. Ele não comunicava seus desejos mas se dirigia, com raiva até, à mãe, que adivinhava e procurava o que ele queria. Não tinha contato com pessoas, as quais considerava definitivamente como uma interferência quando falavam com ele ou tentavam obter sua atenção.
A mãe sentiu que já não era mais capaz de controlá-lo e ele foi colocado num lar adotivo perto de Annápolis sob os cuidados de uma mulher que mostrou sempre um notável talento para lidar com crianças difíceis. Recentemente, essa mulher ouviu-o dizer claramente as primeiras palavras inteligíveis. Eram elas: "boa noite".