CASO 2

Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo

O médico de Frederick W., de seis anos de idade, avaliou em 27 de maio de 1942 que sua
"capacidade de adaptação em um ambiente social era caracterizada tanto pelo ataque como pelo comportamento de recuo". Sua mãe declarou:

O menino sempre foi auto-suficiente. Posso deixá-lo sozinho que ele se entretém com satisfação, andando pelas redondezas, cantando. Nunca o vi chorar para pedir atenção. Ele jamais se interessou por esconde-esconde, mas brinca com a bola de todo jeito, olha o pai se barbear, segura a caixa do aparelho, coloca o aparelho de novo na caixa, põe a tampa na saboneteira. Ele nunca foi muito bom em brincadeiras que exigem cooperação. Não se importa de brincar com as coisas comuns com as quais as outras crianças brincam desde que elas girem. Ele tem medo de coisas mecânicas – foge delas. Sempre teve medo de minha batedeira de ovos e fica inteiramente petrificado com o aspirador de pó. Para ele, elevadores constituem-se em um experiência simplesmente terrificante. Tem medo também dos peões que rodam.

Até o último ano, ele praticamente ignorou os outros. Quanto tínhamos convidados, ele não lhes dava a mínima atenção. Olhava curiosamente para as crianças pequeninas e, depois, queria sair sozinho. Ele se portava como se as pessoas absolutamente não estivessem presentes e o mesmo acontecia diante dos avós. A cerca de um ano atrás começou a mostrar interesse maior em observá-los e até mesmo a chegar perto deles. Mas, em geral, no seu caso, as pessoas significam uma interferência. Ele as empurra para longe. Se se chegam muito perto, empurra-as para longe dele. Não quer que eu o toque ou abrace, mas vem a mim e me toca.

Por um certo espaço de tempo, ele fixa-se em uma determinada coisa. Em uma das prateleiras de nossa estante de livros, tínhamos três peças dispostas de determinada forma. Quando as mudávamos de lugar, ele tornava a dispô-las como se achavam antes. Que se saiba, não tentava novos vôos. Depois de ficar olhado para o ar por um bom tempo, punha-se a fazer o que tinha que ser feito de repente. Queria estar certo de que o faria bem feito. Antes de completar dois anos, falou pelo menos duas palavras ("papai" e "Dora", o nome da mãe). Daí em diante, entre dois e três anos, pronunciou palavras que pareciam chegar a surpreendê-lo. Uma das primeiras palavras que disse foi "macacão". (Como os pais nunca esperavam que ele respondesse as suas perguntas, ficavam surpresos quando respondia "sim") Com dois anos e meio, mais ou menos, ele começou a cantar. Chegou a cantar umas vinte ou trinta canções, inclusive um pequeno acalanto em francês. Em seu quarto ano, tentei fazê-lo pedir as coisas antes de dá-las a ele. Mais teimoso do que eu, resistia mais tempo e se não conseguisse no momento, também não desistia delas. Agora já pode contar até as centenas e lê os números, mas não está interessado neles, nem mesmo em aplicá-los aos objetos. Tem uma enorme dificuldade em aprender a devida colocação de pronomes pessoais. Quando recebe um presente, fala consigo mesmo: "você diz obrigado".

Ele joga boliche e quando vê as garrafas caírem, pula de alegria.

 

Frederick nasceu em 23 de maio de 1936 em posição incomum. A mãe teve "alguns problemas renais" e foi decidida uma cesárea duas semanas antes do prazo estipulado. Ele passou bem depois do parto e não houve dissabores com a alimentação. A mãe se lembrava de que nunca foi detectado antecipadamente sua posição quando ela estava se preparando para dá-lo à luz. Ele sentou-se com sete meses e andou com 18, mais ou menos. Teve resfriados ocasionais e nenhuma outra doença. Tentativas para mantê-lo na creche da escola foram um fracasso: "ou ele fugia ou se escondia em algum canto ou enfiava-se no meio de um grupo e tornava-se muito agressivo". O menino era filho único. O pai, de 44 anos, nível universitário, diplomado em patologia das plantas, era muito viajado em virtude do seu trabalho. Era um homem paciente, tranqüilo, ligeiramente obsessivo; como uma criança, não "dava a última palavra" e era delicado, fazendo crer que lhe tenha faltado vitaminas na dieta elaborada na África. A mãe, de 40 anos, com diploma de faculdade, sucessivamente secretária de médicos, agente de vendas, diretora de estudos de secretariado em uma escola de moças, e ao mesmo tempo professora de história, é descrita como saudável e calma.

O avô paterno organizou missões médicas para a África, estudou medicina tropical na Inglaterra, tornou-se uma autoridade em mineração de manganês no Brasil, e, ao mesmo tempo, decano de uma escola médica e diretor de um museu de arte de uma cidade americana, sendo citado no Quem é Quem com dois nomes diferentes. Ele desapareceu em 1911 e seu paradeiro ficou obscuro por 25 anos. Foi quando então se soube que ele tinha ido para a Europa e se casado com uma romaneista, sem ter se divorciado de sua primeira esposa. A família o considerava "um caráter marcante do tipo gênio que queria fazer o melhor ao seu alcance."

A avó paterna é descrita como "uma missionária calejada, se é o que foi na realidade, totalmente dominadora e de difícil convívio, no momento fazendo pioneirismo no sul, num colégio para montanheses".

O pai é o segundo dos cinco filhos. O mais velho é jornalista e autor de um best-seller muito conhecido. A irmã casada, "sensível e totalmente precoce" é cantora. Depois, vem o irmão que escreve contos de aventuras para uma revista. O mais novo, pintor, escritor e comentarista de rádio, "não falou até cerca de seis anos de idade" e as primeiras palavras que pronunciou foram: "se um leão pode falar, pode também assobiar".

A mãe falou de seus parentes: "os meus eram gente simples". Sua família estabelecera-se numa cidade do Wisconsin, onde o pai é banqueiro; sua mãe interessa-se relativamente pelas obras da igreja e suas três irmãs, todas mais jovens do que ela, são matronas comuns da classe média.

Frederick foi admitido no Harriet Lane Home em 27 de maio de 1942. Parecia estar bem nutrido. A circunferência de sua cabeça media 21 polegadas, a do tórax 22, e a do abdômen 21. Seu occipício e região frontal eram fortemente proeminentes. Tinha um mamilo super-numerário na axila esquerda. Os reflexos eram lentos mas presentes. Todos os outros dados, inclusive exames de laboratório e raio-x do crânio acusaram normalidade, exceto o que se referia às grandes e precárias amígdalas.

Ele foi conduzido ao consultório do psiquiatra por uma enfermeira, que deixou o local imediatamente após. Sua expressão facial era tensa, um tanto apreensiva e deu a impressão de inteligência. Vagamente surpreso por alguns momentos, mostrava-se alheio à presença dos três adultos presentes. Acabou por sentar-se no sofá emitindo sons ininteligíveis quando, abruptamente deitou-se, exibindo um escandalosamente um sorriso sonhador. Respondeu a perguntas do jeito que quis, mas o fez repetindo-as de maneira ecolálica. O traço mais impressionante de seu comportamento era a diferença de reações diante dos objetos e de gente. Os objetos o absorviam facilmente e ele mostrava atenção e perseverança ao brincar com eles. Parecia olhar as pessoas como intrusos nada bem-vindos aos quais prestava tão pouca atenção quanto lhe era permitido. Quando forçado a responder, fazia-o rapidamente e logo voltava sua atenção para coisas. Quando uma mão se levantava à sua frente de maneira a ser impossível ignorá-la, brincava com ela por curtos instantes como se fosse um objeto isolado. E soprou um palito de fósforo com uma expressão satisfatória por ter apagado a chama, mas não olhou para cima, para a pessoa que tinha acendido o fósforo. Quando uma quarta pessoa entrou na sala, ele escondeu-se por um minuto ou dois atrás da estante de livros, dizendo "eu não quero você" e , num aceno de mão, enxotou-a. Depois, recomeçou a brincar e não prestou mais atenção nela nem em ninguém.

O resultado dos testes (Escola de Performance Grace Arthur) era difícil de avaliar por causa da falta de cooperação. Ele foi melhor com o quadro Seguin (menor tempo 58 segundos). Na conclusão do teste de água e do potro ele pareceu guiado unicamente pela forma, a ponto de não fazer diferença se as peças estavam do lado certo ou não. Mostrou boa perseverança e concentração com todas as formas postas na mesa, trabalhando com elas espontânea e interessadamente. Nos intervalos dos testes, andou pela sala, examinando vários objetos, revolvendo o cesto de lixo sem olhar para as pessoas presentes. Ele fez freqüentes ruídos de sucção e, de vez em quando, beijou a superfície dorsal da mão. Ficou fascinado com o círculo que havia entre as formas na mesa, o qual colocou para girar sobre a carteira. E conseguiu não só cumprir a proeza como apará-lo para que não caísse no chão. Frederick foi matriculado na Devereux Schools em 25 de setembro de 1942.


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Esta página foi construída em 02/03/2002, a última atualização 19/06/2003

Créditos: Eduardo Henrique Corrêa da Silva