Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo
Elaine C. foi trazida pelos pais em 12 de abril de 1939, com a idade de 7 anos e 2 meses, por causa de seu "desenvolvimento incomum": "Ela é desajeitada. Se dá a todos os tipos de abstração. Não compreende os brinquedos das outras crianças, não se interessa pelas estórias que lê para ela, nada a admira e anda sozinha, é particularmente atraída por animais de toda espécie, às vezes os imita pondo-se de quatro no chão e fazendo estranhos ruídos".
Elaine nasceu em 3 de fevereiro de 1932, dentro do prazo. Parecia saudável, alimentava-se bem, ficou de pé com 7 meses e andou com menos de um ano. Já pronunciava quatro palavras no fim do primeiro ano de vida mas não fez progressos no desenvolvimento lingüístico nos quatro anos seguintes. Suspeitou-se de surdez, mas a hipótese foi logo descartada. Por causa de uma doença febril aos 13 meses, suas dificuldades crescentes foram interpretadas como desordem no comportamento postencefálico. Outros condenam a mãe, acusando-a de tratar inadequadamente da criança. Oligofrenia foi outro diagnóstico. Por 18 meses ela tomou remédio para a pituitária anterior e tiróide. "Alguns médicos", levados pela fisionomia inteligente de Elaine, "pensaram que ela era uma criança normal e disseram que superaria isto".
Com dois anos ela foi para um creche, onde fazia as coisas à sua maneira e não como os outros. Por exemplo, ela bebeu água e comeu uma planta quando estavam sendo ensinados a cuidar de flores. Desenvolveu um prematuro interesse por gravuras de animais. Embora geralmente agitada, podia ficar horas concentrada, olhando tais gravuras, principalmente as gravadas em cobre".
Quando ela começou a falar, com aproximadamente 5 anos, valeu-se de início de sentenças completas conquanto simples, que não passavam de "frases mecânicas", não relacionadas com a situação presente, de cunho peculiar e metafórico. Ela tinha um vocabulário excelente, sabia não só os nomes mas como "classificar" animais. Não usava os pronomes corretamente, mas usava os plurais e tempos de verbo bem. "Não conseguia empregar as negativas mas sabia o seu significado quando os outros as usavam".
Havia muitas peculiaridades em seu relacionamento com situações:
Ela pode contar, mecanicamente. Pode por a mesa se se disser o nome ou enumerar os comensais, mas não pode pô-la "para três". Se a mandarmos buscar um objeto específico em um lugar determinado, não o trará se ele estiver em um lugar diferente, ainda que visível.
Ela ficava amedrontada com barulhos e qualquer coisa que se movesse em sua direção. Tinha tanto medo do aspirador que nem chegava perto do armário em que ele era guardado e, quando o usávamos, corria para a garagem, cobrindo as orelhas com as mãos.
Elaine era a mais velha dos dois irmãos. Seu pai, de 36 anos, formado em direito e artes liberais e, três universidades (inclusive na Sourbonne), era detentor de direitos autorais de publicidade, "uma dessas pessoas cronicamente magras cuja energia nervosa consome-se rapidamente". Era ao mesmo tempo editor de uma revista. A mãe, de 32 anos de idade, "uma pessoa com autocontrole, plácida e lógica", havia executado trabalho editorial para uma revista antes de se casar. O avô materno era um editor de jornal, a avó "emocionalmente instável".
Elaine foi examinada por um psicólogo de Boston com, aproximadamente, 7 anos de idade. O diagnóstico estabeleceu que, entre outras coisas:
Sua atitude para com o profissional se configurou vaga e desligada. Ainda que incomodada pela limitação, poderia bem ter empurrado para o lado uma mesa ou lançado mão com um grito, mas não fez nenhum apelo pessoal de ajuda ou simpatia. Nos momentos oportunos ela mostrou-se competente ao manejar seus lápis ou agrupar peças para formar gravuras de animais. Pôde dar o nome de uma grande variedade de figuras, incluindo elefantes, jacarés e dinossauros. Usou a linguagem em simples sentenças estruturais, mas raramente respondeu a perguntas diretas. Enquanto brincava, ia repetindo inúmeras vezes frases irrelevantes à situação imediata.
Fisicamente, a criança estava com boa saúde. Seu eletroencefalograma acusou normalidade.
Quando examinada, em abril de 1939, ela, a pedido, trocou um aperto de mãos com o médico, sem olhá-lo. Depois, correu para a janela e olhou para fora. Atendeu automaticamente o convite para sentar-se. Sua reação perante as perguntas – depois de repetidas várias vezes – foi a de ecolalia tipo reprodução de toda a pergunta ou, se era longa demais, só a porção final. Ela não teve um contato real com as pessoas do consultório. Sua expressão era suave, embora não desprovida de inteligência, e não houve gesticulação comunicativa. A certa hora, sem mudar de fisionomia, ela disse subitamente: "Os peixes não choram". Depois de algum tempo, levantou-se e saiu da sala sem perguntas e sem mostrar medo.
Foi colocada no Child Study Home de Maryland, onde permaneceu por três semanas e foi estudada pelos doutores Eugenia S. Cameron e Georg Frankl. Enquanto esteve lá, aprendeu logo os nomes de todas as crianças, sabia a cor dos olhos delas, a cama em que cada uma dormia e muitos outros pormenores afins sem nunca ter feito amizade com elas. Quando levada aos playgrounds, ficava extremamente descontente e corria de volta para seu quarto. Era muito agitada mas quando lhe permitiam olhar gravuras, brincar sozinha com blocos, desenhar ou enfiar contas, podia entreter-se satisfatoriamente por horas a fio. Qualquer barulho, qualquer interrupção, confundia-a. Certa vez, quando sentada no vaso sanitário, ouviu pancadas nos encanamentos; depois disso, por vários dias, mesmo que tivessem colocado um penico em seu quarto, o intestino não funcionou, esperando ansiosamente por aquele barulho. Ela soltava freqüentemente frases estereotipadas, como, por exemplo, "Dinossauros, não chorem", "Camarão, tubarões, peixe e rochedos", "Camarões e garfos vivem nas barrigas das crianças", "Borboletas vivem no estômago das crianças e em suas calcinhas também", "O peixe tem dentes afiados e morde as criancinhas", "Há guerra no céu", "Rochedos e penhascos`, eu matarei" (arrebatando seu cobertor e chutando-o pela cama), "Carrancas comem criancinhas e bebem óleo"; (rangendo os dent4es e girando em círculos, muito excitada); "Carrancas tem sacos de leite"; "Cabeça de agulha. Cravo pequerrucho. Tem uma perna amarela. Cortando o veado morto. Veneno de veado. Pobre Elaine. Nada de girinos em casa. Homens quebraram a perna do veado", (enquanto recortava a gravura de um veado de um livro), "Tigres e gatos". "Focas e salamandras", "Ursos e raposas".
Seguem-se alguns trechos das observações:
Sua linguagem tem sempre a mesma qualidade. Sua fala nunca é acompanhada por expressões faciais ou gestos. Ela não olha para o rosto de ninguém. Sua voz é peculiar, não tem modulações e é um tanto rouca; ela solta as palavras de maneira abrupta.
Seus pronunciamentos são impessoais. Nunca emprega os pronomes pessoais da primeira e segunda pessoas corretamente. Parece não ser capaz de conceber o significado real dessas palavras.
Sua gramática é inflexível. Usa as sentenças exatamente como as ouviu, sem adaptá-las gramaticalmente à situação atual. Quando diz "Quero que eu desenho uma aranha", ela quer dizer "Quero que você desenhe uma aranha".
Sua fala é raramente comunicativa. Ela não se relaciona com crianças, nunca lhes dirigiu a palavra, nunca foi amigável ou brincou com elas. Passa por elas como se fossem seres estranhos, como alguém que passasse entre os móveis de uma sala.
Insiste sempre na repetição da mesma rotina. Interromper essa rotina é a causa mais freqüente de explosões. Suas próprias atividades são simples e receptivas. Ela é capaz de passar horas numa espécie de devaneio e parece ficar muito feliz com isso. Tem tendências a movimentos rítmicos que são sempre masturbatórios. Ela se masturbava mais em períodos de excitação do que durante os de calma felicidade... Seus movimentos são ágeis e habilidosos.
Elaine foi colocada numa escola privada na Pennsylvania. Em carta recente, o pai mencionou "algumas surpreendentes mudanças":
Ela é uma garota alta, robusta, com os mesmos olhos claros que a muito perderam qualquer característica daquela selvajaria animal que periodicamente se mostrava na época em que vocês a conheceram. Ela fala bem sobre quase todos os assuntos, embora guarde ainda uma estranha entonação. Sua conversa ainda vagabundeia, freqüentemente com um assunto divertido, e é apenas ocasional, deliberado e anunciado. Ela lê muito bem, mas lê rápido, misturando palavras, sem pronunciá-las claramente e sem lhes dar a devida ênfase. Seu leque de informações é bastante extenso e a memória quase infalível. É obvio que Elaine não é "normal". Qualquer falha em qualquer coisa a leva a um sentimento de derrota, de desespero e a um momentâneo acesso de depressão.