CASO 10

Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo

John F. Foi examinado pela primeira vez em 13 de fevereiro de 1940, com dois anos e quatro meses de idade.

O pais disse: "O que mais me preocupar é a dificuldade para alimentá-lo. Durante os primeiros dias de vida, não mamava satisfatoriamente. Houve uma longa história na tentativa de fazê-lo aceitar o alimento. Tentamos tudo o que foi possível. Ele sempre foi imaturo. Com 20 meses começou a andar. Chupa o polegar, range os dentes freqüentemente, e rola de um lado para o outro na cama antes de dormir. Se não fizermos o que ele quer, berra e faz alarido".

John nasceu a 19 de setembro de 1937 com sete libras e meia de peso. Foi hospitalizado por causa de problemas com alimentação por várias vezes. Nenhuma desordem física foi constatada – Exceto a da fontanela anterior que não fechou até que ele tivesse dois anos e meio de idade. Sofria constantemente de resfriados e otite média o que pedia uma meringotomia bilateral. John foi filho único até fevereiro de 1943. O pai, um psiquiatra, é "uma pessoa calma, plácida, emocionalmente estável, o elemento moderador da família. A mão, que fez até o colegial, trabalhava como secretária no laboratório de patologia antes de casar, é "um tipo de pessoa hipomaníaco; antes de mais nada, encara a todos como espécimes patológica. Durante a gravidez mostrou-se muito apreensiva, com medo de não sobreviver aos trabalhos de parto". A avó paterna é "obsessiva em matéria de religião, e lava as mãos a toda hora. A avó materna era contadora.

John veio ao consultório com os pais. Perambulou pela sala constante e incertamente. Exceto pelos rabiscos expontâneos, jamais deu mostras de relacionar dois objetos entre si. Não respondeu aos comandos mais simples, salvo quando os pais, com muita dificuldade, gesticulavam um Tchau – tchau, bateram um bolo, esconde-esconde, desajeitadamente. Sua atitude típica para com os objetos era atirá-los no chão.

Três meses mais tarde, seu vocabulário melhorou notavelmente, embora a articulação se mostrasse defeituosa. Leves tendências obsessivas foram observadas, como, por exemplo, empurrar para o lado a primeira colherada de cada travessa. Sua excursão pelo consultório foi superficial, porém determinada.

No final do seu quarto ano, ele estava apto para fazer um tipo muito limitado de contato afetivo e mesmo assim, com um número bastante reduzido de pessoas. Uma vez estabelecido tal relacionamento, tem que prosseguir através dos mesmos moldes. Ele era capaz de formar sentenças elaboradas e gramaticalmente corretas, mas usava o pronome da segunda pessoa quando se referia a si mesmo. Ele fazia uso da linguagem não como meio de comunicação, mas sobretudo como uma repetição de coisas que ouvira, sem alterar o pronome pessoal. Tinha uma obsessividade marcante. A rotina diária devia ser seguida rigidamente; a mais leve mudança no preestabelecido provocava explosão e pânico. a repetição de sentenças não tinha fim. Ele possuía um excelente traquejo de memória e podia recitar muitas preces, rimas infantis e canções "em línguas diversas"; a mão colaborou muito para encher este estofo e ficava orgulhosa com estas "façanhas": "ele reconhece os discos pela cor da capa, e ao identificar um lado lembra-se do que tem no outro". Aos quatro anos e meio, começou aos poucos, a utilizar pronomes adequadamente. Muito embora seu interesse direto recaísse somente sobre objetos, ele empenhou-se seriamente em atrair a atenção do clínico (Dra. Hilde Bruch) e em receber seu aplauso. Porém nunca dirigiu-se a ela direta e espontaneamente. Ele desejava assegurar-se da literal mesmice do ambiente, conservando portas e janelas fechadas. Quando sua mão abriu a porta "para que sua obsessão se manifestasse, ele tornou-se violento – queria fechá-la de novo – e, finalmente, quando houve outra interferência, impotente, desatou a chorar, totalmente frustrado. Ficava extremamente aborrecido quando via algo quebrado ou incompleto. Descobriu dois bonecos aos quais nunca havia prestado atenção antes. Notou que um deles não estava com o chapéu e ficou muito agitado vagando pela sala em busca do chapéu. Quando este foi recuperado em outro contato, ele perdeu, imediatamente, todo o interesse pelos bonecos.

Com cinco anos e meio, já dominava bem o uso dos pronomes. Começara a se alimentar satisfatoriamente. Vendo certa vez, várias fotos no escritório, perguntou ao pai, "quando eles vão sair daí e chegar até aqui?".

Ele levava este assunto muito a sério. Seu pai tinha dito algo sobre os quadros que tinham em casa nas paredes. Isso perturbou John um bocado. Ele corrigiu o pai: "Eles estão perto da parede", (mas, para ele, parecia significar "em cima" ou "no alto").

Quando viu um penny, disse "Penny. é onde vocês jogam boliche" . Nós lhe dávamos pennies quando ele derrubava as garrafas ao jogar com o pai em casa.

Ele viu um dicionário e disse para o pai: "É aí que você deixou o dinheiro?".

Certa vez o pai tinha deixado dinheiro em um dicionário e pedido a John que informasse a mãe sobre isso. Seu pai assobiou uma melodia, e John instantânea e corretamente a identificou como o "concerto de violino de Mendelsohn. Embora pudesse definir coisas como grande ou bonito, era totalmente incapaz de fazer comparações. (Qual a linha maior? o rosto mais bonito? etc.).

Em dezembro de 1942 e janeiro de 1943 ele teve duas séries de convulsões que comprometeram mais o lado direito, conjugadas com o desvio dos olhos para a direita e paralisia transitória do braço direito. Um exame neurológico acusou anormalidades. Suas áreas oculares estavam normais. Um eletroencefalograma indicou "distúrbios focais na região occipital esquerda", mas "boa parte do registro não pôde ser lida por causa das contínuas artificialidades devidas à falta de cooperação da criança".


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Esta página foi construída em 02/03/2002, a última atualização 19/06/2003

Créditos: Eduardo Henrique Corrêa da Silva