CASO 1

Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo

Donald T. foi avaliado pela primeira vez em outubro de 1938, com a idade de cinco anos e um mês. Antes da família chegar de sua cidade natal, seu pai mandou-nos umas trinta e três páginas datilografadas sobre o caso que, apesar de preenchidas com muitos pormenores obsessivos, forneceu um excelente histórico. Donald nasceu no final da gravidez, em oito de setembro de 1933. Pesava aproximadamente três quilos e duzentos gramas ao nascer. Foi amamentado, com alimentação suplementar até o fim do oitavo mês; houve freqüentes mudanças de dieta. "Comer", dizia o relatório, "foi sempre um problema para ele. Essa criança nunca demonstrou um apetite normal. Ver as crianças comendo doces ou sorvete nunca constituiu uma tentação para ele". A dentição ocorreu satisfatoriamente. Ele começou a andar com treze meses.

Com a idade de um ano "cantava ou murmurava de boca fechada algumas melodias com perfeição". Antes dos dois anos de idade, tinha "uma memória invulgar para rostos e nomes, sabia o nome de um grande número de casas" de sua cidade natal. "A família o encorajava a aprender e recitar pequenos poemas e até decorou o salmo XXIII e vinte e cinco perguntas e respostas do catecismo presbiteriano". Os pais observaram que "ele não aprendia a perguntar ou responder perguntas a menos que contivessem rimas ou coisa parecida, e então quase nunca perguntava nada a não ser com palavras isoladas". Sua pronuncia era clara. Interessou-se por gravuras "e logo logo ficou conhecendo um extraordinário número de gravuras de uma seção da enciclopédia Compton". Ele conhecia os retratos dos presidentes "e também muitos de seus ancestrais e da parentela do lado materno e paterno". Aprendeu com rapidez o alfabeto inteiro, "até de trás para adiante" e a contar até cem.

Desde cedo observamos que ele se sentia mais satisfeito quando deixado sozinho, praticamente nunca chorou pedindo a mãe, nunca pareceu dar-se conta da volta do pai para casa e ficava indiferente ao visitar parentes. O pai fez especial menção ao fato que Donald parou até de prestar a mínima atenção ao Papai Noel com todo seu aparato.

Ele parece ser auto-suficiente. Não mostra nenhuma afeição quando mimado. Ignora o fato de alguém chegar ou sair e nunca manifesta alegria ao ver o pai, a mãe ou algum amiguinho. Dá a impressão de voltar-se para a sua concha e viver dentro dela. Certa vez trouxemos um garotinho muito simpático, da mesma idade, de um orfanato para passar o verão com Donald. Entretanto, Donald nunca lhe fez nem respondeu nenhuma pergunta e nem brincou com ele. Raramente se aproxima de alguém que o chame – tem que ser carregado ou conduzido para onde quer que deva ir.

No seu segundo ano de vida, ele "pegou uma mania de girar blocos, pratos e outros objetos redondos". Ao mesmo tempo,

lhe desagradavam veículos auto propulsores, como cavalinhos de montar, velocípedes e balanços. Ele ainda tem medo de velocípedes e parece guardar uma espécie de horror por eles quando é forçado a andar nos mesmos, hora em que tenta pedir socorro à pessoa que o está assistindo. Neste verão [1937], compramos para ele um escorregador, e na primeira tarde, quando outras crianças ali estavam escorregando, ele não se interessava e quando o colocamos lá em cima para escorregar, ele pareceu entrar em pânico. Na manhã seguinte, entretanto, quando não havia ninguém presente, ele foi para fora, subiu a escadinha e escorregou, como tem feito, desde que não haja criança alguma por perto escorregando com ele... Estava sempre constantemente feliz e ocupado em entreter-se, mas ressentia-se se compelido a brincar com certas coisas.

Quando interferiam com ele, tinha acessos de birra com características destrutivas. Ele tinha "um medo terrível de levar umas palmadas" mas "não associava sua má conduta ao castigo".

Em agosto de 1937, Donald foi internado em um centro preventivo de tuberculose a fim de proporcionar "uma mudança de ambiente". Ali, ele tinha uma "propensão a não brincar com crianças e fazer coisas que as crianças de sua idade geralmente gostam de fazer". Ele ganhou peso mas adquiriu o hábito de sacudir a cabeça de um lado para o outro. Continuava a girar objetos e pulava extasiado enquanto os via girar. Manifestava

uma abstração mental que o mantinha totalmente desligado de tudo o que lhe dizia respeito. Parece estar sempre pensando e pensando, e chamar a sua atenção praticamente requer que se quebre a barreira mental entre seu mundo interior e o mundo exterior.

O pai, com quem Donald se parece fisicamente, é um advogado bem-sucedido, meticuloso, ativo, que teve dois colapsos em virtude de excesso de trabalho. Ele sempre levou suas doenças a sério, ficando de cama e seguindo à risca as prescrições médicas mesmo se tratava de um simples resfriado. "Quando anda pela rua vai tão absorto em pensamentos que não vê ninguém ou coisa alguma e não se lembra de nada ocorrido durante a caminhada". A mãe tem nível universitário, é calma, eficiente, e seu marido se sente muito superior a ela. Tiveram um segundo filho em vinte e dois de maio de 1938.

Quando Donald foi examinado em 1938, no Harriet Laine Home, o laudo médico atestou estar em boas condições físicas. Durante a observação inicial e um estudo de duas semanas efetuado pelos doutores Eugenia S. Cameron e George Frankl no Child Study Home em Maryland, foi observado o seguinte quadro:

Havia uma limitação marcante da atividade espontânea. Abrangia o sorriso, o movimento estereotipado dos dedos que se cruzavam no ar. Ele sacudia a cabeça de um lado para o outro, murmurando ou cantando de boca fechada sempre as três mesmas notas de uma canção. Ele girava com grande prazer qualquer coisa que pudesse apanhar para fazer girar. Ficava atirando coisas no chão e parecia encantado com os sons que fazia. Arrumava contas, varetas ou blocos em grupos de diferentes séries de cores. Quando acabava de arrumá-los, guinchava e saltava. Além disto, não dava mostras de iniciativa precisando de constantes instruções (da mãe) para qualquer tipo de atividade que não fosse uma daquelas limitadas com as quais se absorvia.

A maioria de suas atividades não passava de uma repetição, executada exatamente da mesma forma que o tinha sido originariamente. Se ele girava um bloco, começava sempre pela mesma face principal. Quando enfileirava botões, os dispunha dentro de uma certa seqüência sem modelo, mas que era a ordem usada pelo pai quando os havia mostrado pela primeira vez a Donald.

Havia ainda inúmeros rituais verbais se sucedendo pelo dia todo. Quando ele queria descer, depois da sesta, dizia "Boo (como chamava a mãe), diga, ‘Don, você não quer descer?’ ".

Sua mãe aquiescia e Don voltava a falar: "Agora diga ‘Tudo bem’ ".

A mãe concordava e Don descia. Na hora da refeição, repetindo algo que obviamente lhe tinha sido dito com freqüência, ele falava para a mãe "diga ‘Coma, ou não lhe darei tomates’; mas se você não comer eu lhe darei tomates", ou "diga ‘Se você também beber agora, eu vou dar risada e sorrisos’ ".

E sua mãe tinha que se sujeitar a isso e outras coisas mais para ele não grunhir, gritar e distender todos os músculos de seu pescoço tenso. Isso ocorria durante o dia inteiro em razão de uma coisa ou outra. Ele parecia ter muito prazer em emitir (de forma descontrolada e sem sentido) palavras ou frases como por exemplo "crisântemo", "dália", "negócios", "vinhatrombeta", "o direito sim, o esquerdo não", "através da escuridão as nuvens brilhando". Expressões irrelevantes como essas faziam parte de sua forma habitual de falar. Parecia estar sempre como um papagaio repetindo o que lhe tinha sido dito uma vez ou outra. Usava os pronomes pessoais com as pessoas que estava citando, até imitando sua entonação. Quando queria tomar banho, perguntava: "você quer tomar banho?".

As palavras, para ele, tinham um significado especificamente literal e inflexível. Parecia incapaz de generalizar, de transferir uma expressão para um objeto ou situação similar. Se o fez alguma vez, tratava-se de uma substituição que então "permaneceu" definitivamente com esse significado. Consequentemente, ele batizou cada uma de suas garrafas com água colorida com os nomes de cada uma das quíntuplas Dionne – Annete, a azul, Cecile a vermelha, etc. Depois, passando para uma série de misturas de cores, ele raciocinou da seguinte forma: "Annete e Cecile dão púrpura".

Um pedido coloquial para "deixar isto aí" (put that down), significou para ele colocar as coisas sobre o chão. Ele tinha um copo só para tomar leite e outro só para água. Quando colocou um pouco de leite no copo de água, o leite evidentemente passou a ser água branca.

A palavra "sim" significou por muito tempo o desejo de que o pai o colocasse no ombro. Isto teve uma origem determinada. O pai, tentando ensiná-lo a dizer "sim" e "não", perguntou-lhe certa vez

"Você quer que o papai o ponha no ombro?".

Don expressou sua concordância repetindo literalmente a pergunta, com ecolalia. E o pai disse "se você quiser, diga ‘sim’; se não quiser, diga ‘não’".

Don disse "sim", mas daí em diante "sim" passou a significar o desejo de ser içado para o ombro do pai.

Ele não prestava atenção nas pessoas que estavam ao seu redor.

Quando levado para um cômodo, ignorava completamente as pessoas que lá estavam e logo se virava para os objetos, de preferência os que pudesse rodar. Ordens ou ações que não podiam ser ignoradas eram recebidas como instruções nada bem-vindas. Mas ele nunca ficava zangado com a pessoa que interferisse. Empurrava sim, irado, a mão que viesse em seu caminho ou o pé que pisava em um dos seus blocos, referindo-se ao mesmo tempo, ao pé sobre o bloco como "guarda-chuva". Certa vez, o obstáculo foi removido e ele esqueceu-se completamente do caso. Não se deu conta da presença de outras crianças; foi direto até seus passatempos favoritos, distanciando-se delas se elas fossem corajosas o suficiente para juntar-se a ele. Se uma criança tirava um brinquedo seu, ele passivamente o permitia. Ele rabiscava linhas nos livros de gravuras que as outras crianças estavam colorindo, e se, furiosas, elas o ameaçavam, ele retrocedia ou punha a mão nos ouvidos. Sua mãe era a única pessoa com quem ele tinha realmente contato, mas mesmo assim ela ocupava todo o seu tempo arquitetando formas para conseguir que ele brincasse com ela.

Depois que ele voltou para casa, a mãe mandava relatórios periódicos sobre seu desenvolvimento. Ele aprendeu rápido a ler fluentemente e tocar melodias fáceis no piano. Começou, quando se conseguia que ele prestasse atenção, a responder perguntas que pediam como resposta ‘sim’ ou ‘não’. Embora tenha começado ocasionalmente a falar de si próprio como "eu" e de outra pessoa como "você", continuou por um bom tempo com as inversões pronominais. Quando por exemplo em fevereiro de 1939 escorregou e quase caiu, fez o seguinte comentário referindo-se a si próprio: "Você não caiu no chão".

Ele denotava embaraço com relação às inconsistências de soletrar e podia passar horas escrevendo no quadro negro. Sua maneira de brincar tornou-se mais criativa e variada ainda que quase ritualística.

Ele voltou para um check up em maio de 1939. Sua atenção e concentração haviam melhorado. Tinha melhor contato com o ambiente e se notavam algumas reações diretas perante pessoas e situações. Mostrou seu desapontamento quando contrariado, cobrou promessas sedutoras, deu mostras evidentes de prazer quando aplaudido. Era possível, no Child Study Home, obter, com insistência constante, certa condescendência com a rotina diária e algum grau de manuseio apropriado de objetos. Mas ele ainda escrevia letras com os dedos no ar, emitindo palavras – "ponto-e-vírgula", "capital", "doze, doze", "morto, morto", "eu podia por uma virgulazinha ou ponto-e-vírgula" – mastigando sobre o papel, misturando comida com o cabelo, atirando livros dentro do privada, colocando uma chave no esgoto, trepando na mesa e na escrivaninha, explodindo em acessos temperamentais, dando risadinhas e murmurando autisticamente. Ele pegou uma enciclopédia e aprendeu cerca de quinze palavras do índice e as ficou repetindo indefinidamente. Sua mãe tinha ajuda nas tentativas de desenvolver o seu interesse e participação nas situações comuns que a vida apresentava. A seguir, extratos de cartas mandadas posteriormente pela mãe de Donald:

Setembro de 1939. Ele continua a comer, lavar-se e vestir-se sozinho, somente com minha insistência e auxílio. Está ficando desembaraçado, constrói coisas com blocos, dramatiza estórias, tenta lavar o carro, rega as flores com o esguicho, brinca de loja com as mercadorias da mercearia, tenta recortar gravuras com a tesoura. Ele ainda tem grande atração pelos números. Se sua forma de brincar melhorou indiscutivelmente, por outro lado nunca fez perguntas sobre ninguém e não mostra interesse algum pela nossa conversa...

Outubro de 1939. (Um diretor da escola amigo da mãe concordou em fazer uma experiência, colocando Donald no primeiro grau da escola) O primeiro dia foi muito difícil para eles, mas, com o decorrer do tempo, melhorou muito. Don ficou muito mais independente, quer fazer muitas coisas sozinho. Ele anda em fila corretamente, responde quando chamado e está dócil e obediente. Ele nunca conta voluntariamente qualquer uma de suas experiências na escola e nunca faz objeções para ir às aulas.

Novembro de 1939. Visitei sua sala de aula esta manhã e fiquei maravilhada ao ver a maneira satisfatória com que cooperava e respondia. Ele estava muito quieto e calmo e prestou atenção ao que a professora estava dizendo cerca de metade do tempo. Não guinchou ou correu para ir até seu lugar mas foi sentar-se normalmente, como as outras crianças. A professora começou a escrever no quadro negro. O fato atraiu imediatamente sua atenção. Ela escreveu:

Bete pode alimentar um peixe.

Don pode alimentar um peixe.

Jerry pode alimentar um peixe.

Na sua vez, ele foi até o quadro negro e fez um círculo em volta de seu nome. Em seguida, deu de comer a um peixe dourado. Depois, todas as crianças pegaram o livro de leitura e ele o folheou até a página certa, como a professora havia ordenado e leu quando foi chamado. Ele também respondeu uma pergunta sobre uma das gravuras. Diversas vezes, quando solicitado, saltou e sacudiu a cabeça enquanto respondia...

Março de 1940. O maior progresso que notei foi o da conscientização das coisas que lhe dizem respeito. Ele está falando muito mais e perguntado muita coisa boa. Não é sempre que me conta espontaneamente o que acontece na escola, mas se eu fizer perguntas dirigidas, ele as responde com acerto.

Ele está tomando parte nos jogos das outras crianças para valer. Um dia, inscreveu a família num jogo que acabava de aprender, explicando a cada um de nós o que devíamos fazer. Está se alimentando melhor e mostra capacidade para fazer coisas sozinho.

Março de 1941. Ele melhorou enormemente, mas as dificuldades básicas ainda são evidentes. Donald foi trazido para outro check up em Abril de 1941. Não lhe foi feito nenhum convite para que entrasse no consultório mas ele o fez com boa vontade. Lá dentro, nem mesmo lançou um olhar para os clínicos presentes (dois dos quais conhecia bem em virtude de suas consultas anteriores) – foi imediatamente até uma carteira e mexeu em papéis e livros. De início, as perguntas eram correspondidas com um estereotipado "Eu não sei". Depois, por sua conta, pegou lápis e papel e escreveu e desenhou, enchendo páginas e páginas com as letras do alfabeto e alguns desenhos simples. Ele dispôs as letras em duas ou três linhas, lendo-as numa seqüência preferencialmente vertical e mostrou-se muito satisfeito com o resultado. De vez em quando, saia-se, voluntariamente, com uma declaração ou pergunta: "Eu vou ficar dois dias no Child Study Home". Mais além, disse "Onde está minha mãe?"

"O que você quer com ela?", perguntaram-lhe.

"Eu quero abraçá-la no pescoço".

Ele empregava os pronomes com acerto, e suas sentenças eram gramaticalmente corretas.

A maior parte de sua "conversação" consistiu em perguntas de natureza obsessiva. Suas variações eram inexauríveis: "quantos dias numa semana, anos no século, horas num dia, horas num meio dia, semanas num século, séculos em meio milênio, etc., etc. Quantas canecas num galão, quantos galões para encher quatro galões?". Às vezes, perguntava "quantas horas num minuto, quantos dias em uma hora?" e etc. Ele parecia pensativo e sempre queria uma resposta. De vez em quando comprometia-se temporariamente a responder depressa algumas outras perguntas ou solicitações mas, de repente, voltava ao mesmo tipo de comportamento. Muitas de suas respostas eram metafóricas ou então peculiares. Quando lhe pediram que subtraísse 4 de 10, respondeu: "vou desenhar um hexágono".

Ele era ainda extremamente autista. Seu relacionamento com as pessoas só se desenvolveu na medida em que se dirigia a elas quando precisava ou queria saber algo. Ele nunca olhava para a pessoa enquanto falava e não fazia gestos comunicativos. Mas até esse tipo de contato cessava quando lhe falavam ou davam o que pedia.

Uma carta da mãe, datada de outubro de 1942:

Don ainda fica indiferente demais ao que o cerca. Seus interesse mudam constantemente, mas sempre está absorvido com algo tolo, desconexo. Sua literal disposição mental está ainda muito marcada, ele quer soletrar palavras como soam e pronunciar letras de forma consistente. Recentemente, eu consegui que Don fizesse pequenos trabalhos para ganhar um dinheirinho para ir ao cinema. Hoje em dia, ele gosta muito de ir ao cinema, mas sem se dar conta da seqüência da estória. Ele lembra-se das cenas na ordem em que as vê. Outros de seus recentes hobbies se acha em edições antigas da revista Time. Ele encontrou um exemplar da primeira edição de 3 de março de 1923 e procurou fazer uma lista com as datas de publicação de cada edição desde aquele tempo. Até agora foi até abril de 1934. Imaginou quantos exemplares há em um volume e outros disparates similares.


Contato, críticas e sugestões

Retornar


Esta página foi construída em 02/03/2002, a última atualização 19/06/2003

Créditos: Eduardo Henrique Corrêa da Silva