A afetividade do autista tem sido um ponto de discórdia entre pais e profissionais envolvidos na questão , uma vez que a idéia comum , relativa ao autista , é de uma pessoa completamente alienada e desprovida de sentimentos , contrariando pais e pessoas que convivem com o autista .
Os depoimentos que se seguem , obtidos de nossa lista de discussão do autismo no Brasil , são muito importantes e demonstram como a literatura sobre o assunto pode ser arcaica e generalista , bem como quem a usa , como referência , também o pode se tornar . Assim não poderíamos deixar passar essa oportunidade para divulgar uma impressão das pessoas mais envolvidas no assunto , os pais e alguns profissionais .
Para quem está iniciando em nossa ( pais ) peregrinação , ter um ponto de referência ajuda muito , mesmo porque muito do que os pais lêem e ouvem , não bate com o que vêem em seus filhos autistas .
Para evitar constrangimentos e preservar a privacidade dos depoentes , os nomes e lugares figurados nos depoimentos foram alterados .
MARIA
Olá,
Estou com uma dúvida há alguns dias e gostaria de conhecer experiências sobre a afetividade na vida do autista.
Na última visita que fiz a psicóloga do meu filho, ela falou que ele não é autista pois os "autistas não tem afetividade" e ele tem... só que ele está com 14 anos e hoje a situação é bem diferente de quando tinha 2, 3 anos de idade, que não se aroximava de ninguém (a pessoa que ele mais tinha contato era com a avó que passava o dia com ele) mas nem percebia nossa presença (minha e do pai), os olhares que nos dirigia era "através".
Quando chegava visita em casa ele corria para o quarto e se escondia... só saía de lá quando as pessoas já tinham partido... nunca participou dos próprios aniversários (pelo menos até os 9 anos de idade).
Eu sou o que aqui se chama de "chameguenta" gosto de abraçar, cheirar, fazer cosquinhas... e o colocava nos braços, deitava com ele na rede e falava de nossa vida como se fossem estórias, mesmo sem ele dar atenção... cantava músicas inventadas incluindo nossos nomes, nossos papeis (o papai te ama muito, a mamãe te ama muito)... e muitas, muitas vezes dormimos juntos... ele adquiriu um hábito que tem até hoje, de enrrolar os dedos na ponta dos meus cabelos (de tanto enrrolar meu cabelo cacheou), até os 9 anos de idade foi assim, aí foi deixando que outras pessoas se aproximassem aos poucos, deixando-se tocar pelas mais próximas e certa vez na escola me disseram que "desse mais carinho pois ele era muito carente de afeto". Hoje ele é muito carinhoso conosco (os pais e a irmã).
Quem tiver experiência com autismo de alto funcionamento, por favor me fale como funciona a afetividade nesses casos. É possível o autista "adquirir" afetividade?
Muito obrigada,
Maria
JOANA
Maria , um beijo....e muito carinho....
Bem, tem um livro de chama ESTADOS AUTISTAS de Alfredo Jerusalinsky, que fala , em resumo (vou explicar do meu jeito... eu não sou profissional... acho que seria devidamente EXPULSA de qualquer ordem.... *gargalhadas*) , que a pessoa não É autista , ela ESTÁ autista.. e que isso pode ser superado, com muito carinho e amor... porque nada é estático , e o desejo de se suplantar do humano é inerente a qualquer condição . Portanto, porque não ?
Acho mais suave , mais coerente e profundamente mais misericordioso com eles e conosco crer em uma abordagem assim... do que uma abordagem mais quadradinha , que diz que o autismo é um transtorno CRONICO , ALTAMENTE , INCAPACITANTE .
Putz , isso foi dito há quarenta anos atras , depois de UM cara estudar ONZE crianças , dentro de uma INSTITUIÇÃO para doentes mentais... Será que não houve evolução desde então ? PORQUE se toma como verdade absoluta algo baseado em TÃO POUCO ? PORQUE todos acreditam que só o Leo Kanner que está certo , que ele disse uma verdade indiscutível ??? Hoje em dia , se um estudioso apresentasse algo baseado em tão poucas observações , não sei se teria crédito... Pioneiro , sim , mas temos que lembrar que no início de suas pesquisas , esse mesmo senhor disse que a CAUSA do autismo era a falta de amor das mães... Prefiro a teoria ( ou metodologia , ou enfoque , ou qualquer termo científico) do Jerusalinsky...
E parabéns !!!!
Joana
EDUARDO E BEL
Prezada Maria
Sou pai do Alexandre , 5 anos , autista . Pelas definições de autismo ele não deveria ser mais do que um robozinho , não ter afetividade nenhuma , etc.. Te digo que a Joana está coberta de razão quando fala do Leo Kanner , que estudo é esse feito a mais de 50 anos em 11 "amostras" para se chegar a definição desse universo chamado autismo . E apesar de 50 anos decorridos , pouco se acrescentou . A 50 anos foi dito : " a CAUSA do autismo era a falta de amor das mães... " , conclusão precipitada que ainda hoje possui seguidores . Minha esposa , a Bel , "OUVIU ISSO " a coisa de dois meses de uma psicóloga convidada para falar de assuntos relacionados , para um público de enfermeiros , médicos , dentistas , professores . LI ISSO no jornal Estado de Minas dos dois últimos domingos , falado por uma psicanalista francesa em Belo Horizonte . Acusam o autista de falta de imaginação ! Imaginem as milhares , digamos milhões de crianças abandonadas e rejeitadas pelos pais das piores formas possíveis , vítimas de guerras e muitas outras tragédias , pelas quais nem de longe nossos filhos passaram . IMAGINANDO os desamores envolvidos espera-se uma maior incidência de autismo nessas crianças . E acontece ? FALTA DE IMAGINAÇÃO É A DESSAS PESSOAS QUE " REPETEM ISSO " ( não imaginam para falar , nem para repetir ) .
AFETIVIDADE , autistas não "demonstram" afetividade , não quer dizer que lhes falta . Falo pelo meu filho e de outros que conheço . Porque demonstrar afetividade por pessoas que não conhecemos ? Simples protocolos de afetividade ? Um ator é capaz de demonstrar extrema afetividade em suas encenações , mas todos sabemos que não existe , de fato , afetividade nas cenas . O ator simplesmente libera os protocolos de afetividade . Digamos que o autista seja o contrário , não possui os protocolos de afetividade . Em nosso caso , digo meu caso , o Alexandre é muito afetivo conosco pais , professores e quaisquer pessoas que ao julgamento dele mereçam , sem encenações , o seu afeto . Essa área ou síndrome chamada autismo não deveria ser tratada como simples informação , mas sim como complexa desinformação .
Profissionais de todas as áreas são anualmente despejados no mercado de trabalho , portando habilitações , conferidas pelos conteúdos de seus currículos , a capacitação de fato fica a desejar .
Vou encerrar aqui , procurei expressar minha forma de ver .
Eduardo
Walter Camargos Jr <camargos@mkm.com.br>( Psiquiatra Infantil )
Prezada Maria ,
Essa conversa que eles não tem afetividade é de quem lê mas não possui experiência própria .
Na verdade é como disse o Eduardo: ter eles tem, mas a expressão é que é muito diferente e as vezes não é expressa da forma que nós estamos acostumados e treinados a decifrar.
Há outros transtornos (ou doenças) na Psiquiatria em que ocorre essa inadequação da expressão do afeto, mas que eles possuem com certeza possuem.
Há muitos anos atrás eu ouvia isso da Cristina aqui de BH e também achava isso impróprio , mas como ela falava e ela trabalhava com essas crianças a muito mais tempo que eu , comecei a só ver o que estava no livro e VER que ela tinha razão.
Há inclusive alguns que são mais afetivos que outros e isso não tem nada a ver com nível intelectivo ou outros comprometimentos, embora os portadores de quadros muito graves seja difícil perceber a afetividade.
Walter Camargos Jr ( psiquiatra infantil )
ARLENE
Como você viu, pelos depoimentos sobre a questão da afetividade, os profissionais que lidam com nossos filhos têm muito o que aprender conosco e seria muito bom que eles se dispusessem a esse aprendizado mútuo e compartilhado....
Ainda hoje, , a neuropediatra que acompanha o Teldo há 4 anos (ele tem 8 anos) fica admirada com as demonstrações de carinho dele para conosco (os pais). O Teldo não tem nenhuma comunicação verbal, mas sabe como ninguem expressar as suas vontades ( músicas, passeios, comidas, etc) .
Em 1997, no Congresso de Autismo de Brasília, num desses Encontros de Pais com Profissionais ( daqueles tipo 5 ****), um deles me corrigiu, quando eu falei que que o Teldo demonstrava alegria, em determinadas situações. Para ele,
Arlene